Contra Celso - Livro IV 1
A providência divina e a descida de Deus aos homens
Tendo, nos três livros anteriores, exposto por completo o que nos ocorreu como resposta ao tratado de Celso, agora, reverendo Ambrósio, com oração a Deus por meio de Cristo, oferecemos este quarto livro como réplica ao que se segue. E pedimos que nos sejam dadas palavras, como está escrito no livro de Jeremias que o Senhor disse ao profeta: Eis que pus as minhas palavras na tua boca como fogo. Vê, hoje te constituí sobre as nações e sobre os reinos, para arrancares e derrubares, para destruíres e demolires, para edificares e plantares. Pois precisamos agora de palavras que arranquem de toda alma ferida as acusações lançadas contra a verdade por este tratado de Celso, ou que procedem de opiniões como a dele. E precisamos também de pensamentos que derrubem todos os edifícios fundados em falsas opiniões, e especialmente o edifício erguido por Celso em sua obra, que se parece com a construção daqueles que disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue ao céu. Mais ainda, precisamos de uma sabedoria que derrube tudo o que é elevado e se levanta contra o conhecimento de Deus, e especialmente aquela altura de arrogância que Celso ostenta contra nós. E em seguida, já que não devemos parar em arrancar e derrubar os obstáculos que acabamos de mencionar, mas devemos, no lugar do que foi arrancado, plantar as plantas da lavoura de Deus, e no lugar do que foi derrubado, erguer o edifício de Deus e o templo da sua glória, por essa razão devemos também orar ao Senhor, que concedeu os dons mencionados no livro de Jeremias, para que conceda também a nós palavras adequadas tanto para edificar o (templo) de Cristo como para plantar a lei espiritual e as palavras proféticas que a ela se referem. E acima de tudo é necessário mostrar, contra as afirmações de Celso que se seguem às que ele já fez, que as profecias a respeito de Cristo são predições verdadeiras. Pois, posicionando-se ao mesmo tempo contra ambas as partes, contra os judeus de um lado, que negam que a vinda de Cristo tenha acontecido mas a esperam como futura, e contra os cristãos de outro, que reconhecem que Jesus é o Cristo anunciado na profecia, ele faz a seguinte afirmação:
Mas que certos cristãos e (todos) os judeus sustentem, os primeiros que já desceu, os últimos que descerá sobre a terra um certo Deus, ou Filho de um Deus, que tornará justos os habitantes da terra, é uma afirmação das mais descaradas, e cuja refutação não exige muitas palavras. Ora, aqui ele parece pronunciar corretamente, não a respeito de alguns dos judeus, mas de todos eles, que imaginam haver um certo (Deus) que descerá sobre a terra; e a respeito dos cristãos, que alguns deles dizem que ele já desceu. Pois ele se refere àqueles que provam, a partir das Escrituras judaicas, que a vinda de Cristo já aconteceu, e parece saber que existem certas seitas heréticas que negam que Cristo Jesus tenha sido predito pelos profetas. Nas páginas anteriores, contudo, já discutimos, da melhor maneira que pudemos, a questão de Cristo ter sido objeto de profecia, e por isso, para evitar repetição, não retomamos muito do que poderia ser apresentado sobre este ponto. Observe agora que, se ele quisesse, com uma espécie de força aparente, subverter a fé nos escritos proféticos, seja a respeito da vinda futura ou passada de Cristo, deveria ter exposto as próprias profecias que nós, cristãos e judeus, citamos em nossas discussões uns com os outros. Pois desse modo ele teria conseguido afastar aqueles que são levados pelo caráter plausível das afirmações proféticas, como ele o considera, de assentir à sua verdade e de crer, por causa dessas profecias, que Jesus é o Cristo; ao passo que agora, sendo incapaz de responder às profecias relativas a Cristo, ou então não sabendo de modo algum quais são as profecias relativas a ele, ele não apresenta nenhuma declaração profética, embora existam inúmeras que se referem a Cristo; mas ele pensa que faz uma acusação contra as Escrituras proféticas, sem sequer afirmar o que ele mesmo chamaria de seu caráter plausível! Ele não percebe, no entanto, que não são de modo algum os judeus que dizem que Cristo descerá como um Deus, ou o Filho de um Deus, como mostramos nas páginas anteriores. E quando ele afirma que nós dizemos que ele já veio, mas os judeus dizem que sua vinda como Messias ainda é futura, ele parece, pela própria acusação, censurar a nossa afirmação como das mais descaradas, e que não precisa de longa refutação.
E ele continua: Qual é o sentido de tal descida por parte de Deus? sem observar que, segundo o nosso ensino, o sentido da descida é, antes de tudo, converter o que se chama no Evangelho as ovelhas perdidas da casa de Israel; e, em segundo lugar, tirar deles, por causa da sua desobediência, o que se chama o reino de Deus, e dá-lo a outros lavradores que não os antigos judeus, isto é, aos cristãos, que renderão a Deus os frutos do seu reino a seu tempo (cada ação sendo um fruto do reino). Selecionaremos, portanto, de um número maior, algumas observações como resposta à pergunta de Celso, quando ele diz: Qual é o sentido de tal descida por parte de Deus? E Celso aqui se dá uma resposta que não teria sido dada nem pelos judeus nem por nós, quando pergunta: Foi para aprender o que se passa entre os homens? Pois nenhum de nós afirma que foi para aprender o que se passa entre os homens que Cristo entrou nesta vida. Logo em seguida, no entanto, como se alguém respondesse que foi para aprender o que se passa entre os homens, ele faz esta objeção à sua própria afirmação: Ele não sabe todas as coisas? Então, como se respondêssemos que ele sabe todas as coisas, ele levanta uma nova questão, dizendo: Então ele sabe, mas não torna (os homens) melhores, nem lhe é possível, por meio do seu poder divino, tornar (os homens) melhores. Ora, tudo isso da parte dele é conversa tola; pois Deus, por meio do seu verbo, que continuamente passa de geração em geração para almas santas, constituindo-as amigas de Deus e profetas, de fato aperfeiçoa aqueles que escutam as suas palavras; e pela vinda de Cristo ele aperfeiçoa, por meio da doutrina do cristianismo, não os que não querem, mas os que escolheram a vida melhor e o que é agradável a Deus. Não sei, além disso, que tipo de aperfeiçoamento Celso desejava que acontecesse quando levantou a objeção, perguntando: Não lhe é então possível, por meio do seu poder divino, tornar (os homens) melhores, a menos que envie alguém para esse propósito específico? Quereria ele então que o aperfeiçoamento acontecesse por Deus encher as mentes dos homens com novas ideias, removendo de uma vez a maldade (inerente) e implantando a virtude (em seu lugar)? Outra pessoa agora indagaria se isso não seria incoerente ou impossível na própria natureza das coisas; nós, no entanto, diríamos: Admita que seja assim, e que seja possível. Onde fica, então, o nosso livre-arbítrio? E que mérito há em assentir à verdade? Ou como é louvável a rejeição do que é falso? Mas, mesmo que se concedesse uma vez que tal procedimento fosse não apenas possível, mas pudesse ser realizado com propriedade (por Deus), por que não se indagaria antes (fazendo uma pergunta como a de Celso) por que não foi possível a Deus, por meio do seu poder divino, criar homens que não precisassem de aperfeiçoamento, mas que fossem por si mesmos virtuosos e perfeitos, não existindo o mal de modo algum? Essas questões podem confundir pessoas ignorantes e tolas, mas não aquele que enxerga a natureza das coisas; pois, se você tira a espontaneidade da virtude, destrói a sua essência. Mas seria preciso um tratado inteiro para discutir esses assuntos; e sobre este tema os gregos se expressaram longamente em suas obras sobre a providência. Eles certamente não diriam o que Celso expressou em palavras, que Deus sabe (todas as coisas), de fato, mas não torna (os homens) melhores, nem é capaz de fazê-lo pelo seu poder divino. Nós mesmos falamos em muitas partes dos nossos escritos sobre esses pontos, da melhor maneira que pudemos, e as Escrituras Sagradas estabeleceram o mesmo para aqueles que são capazes de compreendê-las.
O argumento que Celso emprega contra nós e contra os judeus se voltará contra ele próprio assim: Meu bom senhor, o Deus que está acima de todas as coisas sabe o que se passa entre os homens, ou não sabe? Ora, se você admite a existência de um Deus e de uma providência, como o seu tratado indica, ele necessariamente deve saber. E se ele sabe, por que não torna (os homens) melhores? Será então obrigatório a nós defender o procedimento de Deus em não tornar os homens melhores, ainda que conheça o estado deles, mas não igualmente obrigatório a você, que não mostra distintamente pelo seu tratado que é epicurista, mas finge reconhecer uma providência, explicar por que Deus, embora saiba tudo o que se passa entre os homens, não os torna melhores, nem por poder divino liberta todos os homens do mal? Não nos envergonhamos, contudo, de dizer que Deus está constantemente enviando (instrutores) a fim de tornar os homens melhores; pois encontram-se entre os homens razões dadas por Deus que os exortam a entrar numa vida melhor. Mas há muitas diferenças entre os que servem a Deus, e são poucos em número os que são perfeitos e puros embaixadores da verdade, e que produzem uma reforma completa, como fizeram Moisés e os profetas. Mas acima de todos esses, grande foi a reforma realizada por Jesus, que desejou curar não apenas os que viviam num canto do mundo, mas, no que dele dependia, os homens de todo país, pois ele veio como o Salvador de todos os homens.
O ilustre Celso, tomando ocasião não sei do quê, levanta em seguida uma objeção adicional contra nós, como se afirmássemos que o próprio Deus descerá aos homens. Ele imagina também que disso decorre que ele deixou a sua própria morada; pois não conhece o poder de Deus, nem que o Espírito do Senhor enche o mundo, e que aquele que sustenta todas as coisas tem conhecimento da voz. Nem é capaz de entender as palavras: Por acaso não encho eu o céu e a terra? diz o Senhor. Nem percebe que, segundo a doutrina do cristianismo, todos nós nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como Paulo também ensinou em seu discurso aos atenienses; e por isso, ainda que o Deus do universo descesse, pelo seu próprio poder, com Jesus para a vida dos homens, e ainda que o Verbo que estava no princípio com Deus, que também é o próprio Deus, viesse até nós, ele não cede o seu lugar nem desocupa o seu próprio assento, de modo que um lugar ficasse vazio dele e outro, que antes não o continha, fosse preenchido. Mas o poder e a divindade de Deus vêm por meio daquele que Deus escolhe, e residem naquele em quem encontram lugar, sem mudar de posição, nem deixar o seu próprio lugar vazio e preencher outro: pois, ao falarmos de ele deixar um lugar e ocupar outro, não pretendemos que tais expressões sejam tomadas no sentido espacial; mas dizemos que a alma do homem mau, e daquele que está mergulhado na maldade, é abandonada por Deus, ao passo que dizemos que a alma daquele que deseja viver virtuosamente, ou daquele que progride (numa vida virtuosa), ou que já vive de acordo com ela, é preenchida pelo Espírito Divino ou se torna participante dele. Não é necessário, então, para a descida de Cristo, ou para a vinda de Deus aos homens, que ele abandone um assento maior, e que as coisas na terra sejam alteradas, como Celso imagina quando diz: Se você mudasse uma única, mesmo a menor, das coisas na terra, todas as coisas seriam derrubadas e desapareceriam. E se devemos falar de uma mudança em alguém pelo aparecimento do poder de Deus, e pela entrada do verbo entre os homens, não relutaremos em falar de mudar de uma vida má para uma virtuosa, de uma dissoluta para uma comedida, e de uma supersticiosa para uma religiosa, a pessoa que permitiu ao verbo de Deus encontrar entrada em sua alma.
Mas, se quiserem que enfrentemos a mais ridícula das acusações de Celso, escutem-no quando diz: Ora, Deus, sendo desconhecido entre os homens e julgando-se por isso ter menos do que lhe é devido, desejaria fazer-se conhecido, e pôr à prova tanto os que creem nele como os que não creem, como aqueles homens que recentemente entraram na posse de riquezas e fazem ostentação da sua fortuna; e assim eles atribuem a Deus uma ambição excessiva, mas bem mortal. Respondemos, então, que Deus, não sendo conhecido pelos homens maus, desejaria fazer-se conhecido, não porque pense que recebe menos do que lhe é devido, mas porque o conhecimento dele libertará da infelicidade aquele que o possui. Mais ainda, nem mesmo com o desejo de provar os que creem ou os que não creem nele é que ele, pelo seu poder inefável e divino, fixa morada em certos indivíduos, ou envia o seu Cristo; mas faz isso para libertar de toda a sua miséria os que creem nele e aceitam a sua divindade, e para que os que não creem não tenham mais isto como desculpa, isto é, que a sua incredulidade é consequência de não terem ouvido a palavra de instrução. Que argumento, então, prova que decorre das nossas concepções que Deus, segundo as nossas representações, é como aqueles homens que recentemente entraram na posse de riquezas e fazem ostentação da sua fortuna? Pois Deus não faz nenhuma ostentação para conosco, por desejo de que entendamos e consideremos a sua preeminência; mas, desejando que a bem-aventurança que resulta de ser conhecido por nós seja implantada em nossas almas, ele faz com que isso aconteça por meio de Cristo e do seu verbo sempre habitante, para que cheguemos a uma comunhão íntima com ele. Nenhuma ambição mortal, então, a doutrina cristã atribui à parte de Deus.
Não sei como é que, depois das observações tolas que fez sobre o assunto que acabamos de discutir, ele acrescenta o seguinte: que Deus não deseja fazer-se conhecido por causa de si mesmo, mas porque quer conceder-nos o conhecimento de si mesmo em prol da nossa salvação, a fim de que os que o aceitam se tornem virtuosos e sejam salvos, enquanto os que não o aceitam sejam mostrados como maus e sejam punidos. E ainda assim, depois de fazer tal afirmação, ele levanta uma nova objeção, dizendo: Depois de um período de tempo tão longo, então, lembrou-se Deus agora de fazer os homens viverem vidas justas, mas deixou de fazê-lo antes? A isso respondemos que nunca houve um tempo em que Deus não quisesse fazer os homens viverem vidas justas; mas ele continuamente manifestou o seu cuidado com o aperfeiçoamento do animal racional, oferecendo-lhe ocasiões para o exercício da virtude. Pois em cada geração a sabedoria de Deus, passando para aquelas almas que ela verifica serem santas, converte-as em amigas e profetas de Deus. E podem encontrar-se no livro sagrado (os nomes de) aqueles que em cada geração foram santos, e foram recipientes do Espírito Divino, e que se empenharam em converter os seus contemporâneos no que estava ao seu alcance.
E não é motivo de surpresa que em certas gerações tenham existido profetas que, na recepção da influência divina, superaram, por meio da sua vida (religiosa) mais forte e mais poderosa, outros profetas que foram seus contemporâneos, e outros ainda que viveram antes e depois deles. E assim não é nada espantoso que também tenha havido um tempo em que algo de excelência superior fixou morada entre a raça humana, e que se distinguiu acima de tudo o que o precedeu ou mesmo o que se seguiu. Mas há um elemento de profundo mistério no relato dessas coisas, um elemento incapaz de ser recebido pelo entendimento comum. E para que essas dificuldades sejam desfeitas, e para que as objeções levantadas contra a vinda de Cristo sejam respondidas, isto é, depois de um período de tempo tão longo, então, lembrou-se Deus agora de fazer os homens viverem vidas justas, mas deixou de fazê-lo antes?, é necessário tocar na narrativa das divisões (das nações), e tornar evidente por que foi que, quando o Altíssimo dividiu as nações, quando separou os filhos de Adão, fixou os limites das nações segundo o número dos anjos de Deus, e a porção do Senhor foi o seu povo Jacó, Israel o cordão da sua herança; e será necessário declarar a razão pela qual o nascimento de cada homem se deu dentro de cada limite específico, sob aquele que obteve o limite por sorte, e como aconteceu corretamente que a porção do Senhor fosse o seu povo Jacó, e Israel o cordão da sua herança, e por que antigamente a porção do Senhor foi o seu povo Jacó, e Israel o cordão da sua herança. Mas, com respeito aos que vêm depois, é dito ao Salvador pelo Pai: Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os confins da terra por possessão. Pois há certas razões conexas e relacionadas, referentes ao tratamento diferente das almas humanas, que são difíceis de declarar e de investigar.
Veio, então, embora Celso não queira admiti-lo, depois dos numerosos profetas que foram os reformadores daquele conhecido Israel, o Cristo, o Reformador do mundo inteiro, que não precisou empregar contra os homens açoites, e correntes, e torturas, como acontecia sob a economia anterior. Pois quando o semeador saiu a semear, a doutrina bastou para semear a palavra por toda parte. Mas, se há um tempo por vir que necessariamente limitará a duração do mundo, em razão de ele ter tido um começo, e se há de haver um fim para o mundo, e depois do fim um juízo justo de todas as coisas, caberá àquele que trata filosoficamente as declarações dos Evangelhos estabelecer essas doutrinas por argumentos de toda espécie, não apenas derivados diretamente das Escrituras Sagradas, mas também por inferências delas deduzíveis; ao passo que a classe mais numerosa e mais simples dos crentes, e os que são incapazes de compreender os muitos e variados aspectos da sabedoria divina, devem confiar-se a Deus, e ao Salvador da nossa raça, e contentar-se com o seu ipse dixit, em vez desta ou de qualquer outra demonstração.
Em seguida, Celso, como é seu costume, não tendo provado nem estabelecido nada, passa a dizer, como se falássemos de Deus de um modo que não é nem santo nem piedoso, que é perfeitamente manifesto que eles tagarelam sobre Deus de uma maneira que não é nem santa nem reverente; e ele imagina que fazemos essas coisas para provocar o espanto dos ignorantes, e que não dizemos a verdade a respeito da necessidade de castigos para os que pecaram. E, em conformidade, ele nos compara àqueles que nos mistérios báquicos introduzem fantasmas e objetos de terror. Com respeito aos mistérios de Baco, se há algum relato confiável sobre eles, ou nenhum que o seja, deixem que os gregos digam, e que Celso e os seus companheiros de festança escutem. Mas defendemos o nosso próprio procedimento, quando dizemos que o nosso objetivo é reformar a raça humana, seja pelas ameaças de castigos que estamos persuadidos serem necessárias para o mundo inteiro, e que talvez não sejam sem proveito para os que hão de suportá-las; seja pelas promessas feitas aos que viveram vidas virtuosas, e nas quais se contêm as afirmações a respeito do fim bem-aventurado que se há de encontrar no reino de Deus, reservado para os que são dignos de se tornarem seus súditos.
Depois disso, desejoso de mostrar que nada de espantoso ou de novo afirmamos a respeito de dilúvios ou conflagrações, mas que, por má compreensão dos relatos dessas coisas que correm entre os gregos ou as nações bárbaras, demos crédito às nossas próprias Escrituras ao tratarmos delas, ele escreve o seguinte: Espalhou-se entre eles, por má compreensão dos relatos dessas ocorrências, a crença de que, depois de longos ciclos de tempo, e dos retornos e conjunções dos planetas, conflagrações e dilúvios costumam acontecer, e porque, depois do último dilúvio, que se deu no tempo de Deucalião, o decurso do tempo, de acordo com a alternância de todas as coisas, exige uma conflagração; e isso os levou a proferir a opinião errônea de que Deus descerá, trazendo fogo como um carrasco. Ora, em resposta a isso dizemos que não entendo como Celso, que leu muito, e que mostra ter percorrido muitas histórias, não teve a sua atenção detida pela antiguidade de Moisés, que, segundo certos historiadores gregos, teria vivido por volta do tempo de Ínaco, filho de Foroneu, e é reconhecido pelos egípcios como homem de grande antiguidade, assim como por aqueles que estudaram a história dos fenícios. E qualquer um que queira pode percorrer os dois livros de Flávio Josefo sobre as antiguidades dos judeus, a fim de ver de que modo Moisés foi mais antigo do que aqueles que afirmaram que dilúvios e conflagrações ocorrem no mundo após longos intervalos de tempo; afirmação que Celso alega terem os judeus e cristãos mal compreendido, e, não captando o que se dizia sobre uma conflagração, terem declarado que Deus descerá, trazendo fogo como um carrasco.