Confissões - Livro VI 4

Livro VI: Mônica em Milão, a luta com a ambição e o combate à incontinência

Como, pois, eu ignorasse de que modo subsistia essa imagem vossa, batendo poderia eu propor como se deveria crer, e não, insultando, opor-me como se assim se houvesse crido. Tanto mais agudo cuidado, portanto, me roía as entranhas, sobre que de certo deveria reter, quanto mais me envergonhava de, por tanto tempo iludido e enganado pela promessa de coisas certas, haver, com pueril erro e veemência, tagarelado tantas coisas incertas como se fossem certas. Pois que fossem falsas, depois me ficou claro; certo era, no entanto, que eram incertas e que por mim, em algum tempo, foram tidas por certas, quando, com cegas contendas, eu acusava a vossa Igreja Católica, ainda que não a tivesse descoberto a ensinar o verdadeiro, mas certamente a não ensinar aquilo que eu gravemente lhe acusava. E assim me confundia e me convertia, e me alegrava, Deus meu, de que a única Igreja, corpo do vosso Único, na qual a mim, infante, o nome de Cristo fora imposto, não soubesse de pueris ninharias, nem tivesse em sua doutrina isto: empurrar-vos, Criador de todas as coisas, para um espaço de lugar, ainda que sumo e amplo, mas de toda parte delimitado pela figura de membros humanos.
Alegrava-me também de que as antigas escrituras da lei e dos profetas não me fossem propostas para ler com aquele olhar com que antes pareciam absurdas, quando eu arguia os vossos santos como se assim sentissem, sendo que de fato não sentiam assim. E como quem recomendava diligentíssimamente uma regra, muitas vezes, em seus sermões ao povo, eu ouvia, alegre, Ambrósio dizer: 'a letra mata, mas o espírito vivifica', quando aquelas coisas que, ao da letra, pareciam ensinar perversidade, removido o místico véu, ele abria espiritualmente, não dizendo nada que me ofendesse, ainda que dissesse coisas cuja verdade eu até então ignorava. Pois eu guardava o meu coração de todo assentimento, temendo o precipício, e com a suspensão mais me matava. Pois eu queria tornar-me certo daquilo que não via, assim como estava certo de que sete e três são dez. Nem tão insano eu era que julgasse nem isto poder ser compreendido; mas, assim como isto, assim desejava as demais coisas, fossem corporais, que não estavam presentes aos meus sentidos, fossem espirituais, das quais não sabia pensar senão corporalmente. E por crer poderia eu ser curado, para que a mais purificada agudeza da minha mente se dirigisse de algum modo à vossa verdade, que sempre permanece e em nada falta. Mas, como costuma acontecer que quem provou um mau médico tema confiar-se até ao bom, assim estava a saúde da minha alma, que de modo nenhum, senão crendo, podia ser curada e, para não crer falsidades, recusava ser curada, resistindo às vossas mãos, vós que preparastes os medicamentos da e os espalhastes sobre as enfermidades do orbe da terra e lhes concedestes tão grande autoridade.