Confissões - Livro VI 5

Livro VI: Mônica em Milão, a luta com a ambição e o combate à incontinência

Por isso, dando então a preferência também à doutrina católica, sentia que ali se ordenava com mais modéstia e sem nenhum engano que se cresse no que não se demonstrava (fosse porque a coisa existia, mas talvez não houvesse a quem se demonstrar, fosse porque nem ao menos existia algo a demonstrar), do que ali, entre os maniqueus, onde com temerária promessa de ciência se zombava da credulidade e depois se mandava crer em tantas coisas fabulosíssimas e absurdíssimas, justamente porque não podiam ser demonstradas. Depois, pouco a pouco, vós, Senhor, com mão mansíssima e misericordiosíssima manejando e compondo o meu coração, me persuadistes, ao considerar quantas inumeráveis coisas eu cria sem ter visto nem ter estado presente quando se passaram, como tantas coisas na história dos povos, tantas a respeito de lugares e cidades que eu não vira, tantas a respeito de amigos, tantas a respeito de médicos, tantas a respeito de outros e outros homens, coisas que, se não fossem cridas, de modo algum nada fazíamos nesta vida; e, por fim, com quanta firmeza inabalável eu retinha pela de que pais nascera, o que não poderia saber se não tivesse crido ouvindo: vós me persuadistes que não eram de censurar os que criam nos vossos livros, que com tão grande autoridade fundastes em quase todos os povos, mas os que neles não criam; e que não se deviam ouvir os que porventura me dissessem: 'donde sabes que esses livros foram ministrados ao gênero humano pelo Espírito do único e veracíssimo Deus?' Pois isso mesmo era o que mais se devia crer, que nenhuma pugnacidade de questões caluniosas, em meio a tantas que eu lera entre os filósofos que se contradiziam uns aos outros, pode jamais arrancar de mim que ao menos cresse que vós sois, fosse o que fosse aquilo que sois e que eu ignorava, e que a administração das coisas humanas a vós pertence.
Mas isso eu cria às vezes com mais robustez, às vezes com mais fraqueza; sempre, no entanto, cri que vós sois e que cuidais de nós, ainda que ignorasse ou o que se devia sentir acerca da vossa substância, ou que caminho conduzia ou reconduzia a vós. E por isso, sendo nós enfermos demais para encontrar a verdade por raciocínio límpido, e por causa disso necessitando da autoridade das santas Escrituras, começara a crer que de modo algum teríeis concedido a essa Escritura tão excelente autoridade por todas as terras, se não tivésseis querido que por ela se cresse em vós e por ela se vos buscasse. Pois a absurdidade que naqueles escritos costumava ofender-me, depois de ter ouvido muitas coisas deles expostas de modo plausível, eu a remetia à profundidade dos mistérios; e tanto mais venerável e digna de sacrossanta me aparecia aquela autoridade, quanto, estando ao alcance de todos para ler, guardava a dignidade do seu segredo num sentido mais profundo, oferecendo-se a todos com palavras abertíssimas e com o mais humilde gênero de falar, e exercitando a atenção dos que não são leves de coração, para acolher a todos em seu seio popular e por estreitos orifícios transportar poucos até vós, mas muito mais, no entanto, do que se não se erguesse em tão alto cume de autoridade, nem atraísse as multidões ao regaço de sua santa humildade. Estas coisas eu pensava, e vós estáveis comigo; suspirava, e vós me ouvíeis; flutuava, e vós me governáveis; ia pela larga estrada do século, e não me abandonáveis.