Confissões - Livro VI 3

Livro VI: Mônica em Milão, a luta com a ambição e o combate à incontinência

Nem gemia orando para que me socorrésseis, mas o meu ânimo estava intento em buscar e inquieto em discutir; e ao próprio Ambrósio eu reputava um homem feliz segundo o século, que tamanhas potestades o honravam: somente o seu celibato me parecia penoso. Mas que esperança ele trazia consigo, e que luta travava contra as tentações da própria excelência, ou que consolo nas adversidades, e que alegrias saborosas a boca oculta dele, que estava em seu coração, ruminava do vosso pão, isto eu nem sabia conjecturar nem o experimentara; nem ele conhecia os meus ardores nem o fosso do meu perigo. Pois não podia perguntar-lhe o que queria, como queria, que me apartavam do seu ouvido e da sua boca as turbas de homens ocupados, a cujas fraquezas ele servia. Quando não estava com eles, o que era pouquíssimo tempo, ou refazia o corpo com os sustentos necessários ou o ânimo com a leitura. Mas quando lia, os olhos eram conduzidos pelas páginas e o coração perscrutava o sentido, ao passo que a voz e a língua repousavam. Muitas vezes, quando ali estávamos (pois a ninguém se proibia entrar, nem era costume anunciar-lhe quem chegava), assim o víamos ler em silêncio, e nunca de outro modo; e, sentados em longo silêncio (pois quem ousaria perturbar tão intenta aplicação?), retirávamo-nos, conjecturando que, naquele pouco tempo que conseguia para refazer o seu espírito, livre do estrépito das causas alheias, não queria ser desviado para outra coisa, e acautelava-se talvez de que, estando o ouvinte suspenso e atento, se o autor que lia tivesse posto algo de modo mais obscuro, fosse necessário também expô-lo ou discorrer sobre questões mais difíceis, e, gasto o tempo nesse trabalho, percorresse menos volumes do que desejava; embora também a razão de preservar a voz, que muito facilmente se lhe enrouquecia, pudesse ser causa mais justa de ler em silêncio. Mas com qualquer intenção que o fizesse, certamente aquele homem o fazia para o bem.
Mas, decerto, nenhuma oportunidade me era dada de indagar o que desejava daquele vosso tão santo oráculo, que era o peito dele, a não ser quando algo breve houvesse de ser ouvido. Ora, os meus ardores requeriam que ele estivesse bem desocupado, para que neles se derramassem, e nunca o encontravam. E eu de fato o ouvia, todo dia do Senhor, tratar retamente diante do povo a palavra da verdade, e mais e mais se confirmava em mim que se podiam desatar todos os nós das astutas calúnias que aqueles nossos enganadores entrelaçavam contra os livros divinos. Mas quando soube também que o homem feito por Vós à vossa imagem não era assim entendido pelos vossos filhos espirituais, que da Mãe católica regenerastes pela graça, como se cressem e imaginassem que Vós estais determinado pela forma do corpo humano (ainda que de que modo subsistisse a substância espiritual eu nem sequer tenuemente, e como num enigma, suspeitava), todavia, regozijando-me, corei de vergonha por ter, durante tantos anos, ladrado não contra a católica, mas contra as ficções das imaginações carnais. Pois eu havia sido temerário e ímpio, que aquilo que devia aprender indagando eu havia proferido acusando. Pois Vós, altíssimo e proximíssimo, secretíssimo e presentíssimo, a quem os membros não são uns maiores e outros menores, mas em toda parte sois inteiro e em nenhum lugar estais circunscrito, não sois de modo algum essa forma corpórea; e, contudo, fizestes o homem à vossa imagem, e eis que ele, da cabeça aos pés, está contido num lugar.