Confissões - Livro VI 14
Livro VI: Mônica em Milão, a luta com a ambição e o combate à incontinência
E muitos amigos havíamos agitado no ânimo, e, conversando e detestando os turbulentos incômodos da vida humana, já quase tínhamos resolvido viver em ócio, afastados das multidões; e esse ócio assim o dispúnhamos: que tudo quanto pudéssemos possuir o trouxéssemos para o comum, e de tudo formássemos um só patrimônio familiar, de modo que, pela sinceridade da amizade, não houvesse uma coisa deste e outra daquele, mas o que de todos se fizesse fosse um só e universal, pertencente a cada um, e tudo de todos, pois nos parecia que poderíamos ser uns dez homens na mesma sociedade, e havia entre nós homens riquíssimos, sobretudo Romaniano, nosso conterrâneo, a quem então os graves ardores de seus negócios haviam atraído à corte, e que desde a primeira idade me era familiaríssimo. Era ele quem mais insistia nessa empresa, e tinha grande autoridade ao persuadir, porque a sua ampla fortuna em muito sobrepujava a dos demais. E havíamos resolvido que dois homens, anualmente, como que magistrados, cuidassem de todas as coisas necessárias, ficando os outros em sossego. Mas, depois que se começou a cogitar se isso o consentiriam as mulheres, que alguns dos nossos já tinham e nós outros desejávamos ter, todo aquele plano, que tão bem formávamos, se desfez nas mãos, e foi quebrado e lançado fora. Daí, aos suspiros e gemidos, e os passos a seguir as largas e batidas vias do século, porque muitos eram os pensamentos em nosso coração, mas o vosso conselho permanece para sempre. E desse conselho zombáveis Vós dos nossos, e preparáveis os vossos para nós, havendo de dar-nos o alimento no tempo oportuno, e de abrir a vossa mão e encher de bênção as nossas almas.