Confissões - Livro IX 2

Livro IX: o batismo, a vida em Cassicíaco e a morte de Mônica em Óstia

E aprouve-me, em vossa presença, não arrebatar tumultuosamente, mas retirar com brandura o ministério de minha língua dos mercados da loquacidade, para que os jovens, meditando não em vossa lei, não em vossa paz, mas em loucuras mentirosas e batalhas forenses, não comprassem de minha boca armas para o seu furor. E oportunamente restavam pouquíssimos dias até as férias da vindima, e resolvi suportá-los, a fim de me retirar conforme o costume e, resgatado por Vós, não mais voltar à venda. Era, pois, este o nosso propósito diante de Vós; diante dos homens, porém, exceto os nossos, não o era. E havia entre nós o acordo de que a ninguém se divulgasse por toda parte, ainda que Vós, a nós que subíamos do vale de lágrimas e cantávamos o cântico dos degraus, tivésseis dado setas agudas e brasas devastadoras contra a língua dolosa, que, como se nos aconselhasse, nos contradiz e, como costuma com o alimento, amando consome.
Tínheis traspassado o nosso coração com vossa caridade, e levávamos vossas palavras cravadas nas entranhas. E os exemplos de vossos servos, que de negros fizestes luzentes e de mortos vivos, amontoados no seio de nosso pensamento, queimavam e consumiam o pesado torpor, para que não tombássemos para o abismo, e nos inflamavam tão fortemente que todo sopro da língua dolosa dos que contradizem podia incendiar-nos mais áspera, não extinguir-nos. Contudo, porque por causa de vosso nome, que santificastes pelas terras, o nosso voto e propósito haveria de ter até quem o louvasse, parecia semelhante à jactância não aguardar tão próximo o tempo das férias, mas afastar-me antes de uma profissão pública e posta diante dos olhos de todos; de modo que, voltados todos os rostos para o meu ato, observando quão vizinho o dia da vindima eu quisera antecipar, muito falariam, como se eu tivesse aspirado a parecer grande. E de que me serviria isto, que se julgasse e se disputasse acerca de meu ânimo, e se blasfemasse o nosso bem?
Mais ainda: porque naquele mesmo verão meu pulmão, pelo trabalho literário excessivo, começara a ceder e a custo respirava, e com dores no peito atestava estar ferido, recusando voz mais clara ou mais prolongada, isto a princípio me perturbara, porque me forçava a depor quase por necessidade a carga daquele magistério ou, se pudesse ser curado e convalescer, ao menos a interrompê-lo. Mas, depois que surgiu em mim e se firmou a plena vontade de descansar e ver que Vós sois o Senhor (Vós o sabeis, meu Deus), comecei até a alegrar-me de que também houvesse esta desculpa não mentirosa, que abrandasse a ofensa dos homens que, por causa de seus filhos, nunca queriam que eu fosse livre. Cheio, pois, de tal alegria, suportava aquele intervalo de tempo até que decorresse (não sei se foram vinte dias), mas suportava-se com firmeza, porque se afastara a cobiça que comigo costumava carregar o pesado negócio, e eu ficaria a ser oprimido, se a paciência não lhe sucedesse. Que pequei nisto, talvez algum de vossos servos, meus irmãos, diga: que, de coração cheio para vossa milícia, me deixei sentar ainda que por uma hora na catedra da mentira. Mas eu não contendo. Vós, porém, Senhor misericordiosíssimo, não perdoastes e remistes também este pecado, com os demais horrendos e mortíferos, na água santa?