Confissões - Livro IX 1
Livro IX: o batismo, a vida em Cassicíaco e a morte de Mônica em Óstia
Ó Senhor, eu sou vosso servo; eu sou vosso servo e filho da vossa serva: rompestes as minhas cadeias, a Vós sacrificarei hóstia de louvor. Louve-Vos o meu coração e a minha língua, e digam todos os meus ossos: "Senhor, quem é semelhante a Vós?" Que o digam, e respondei-me, e dizei à minha alma: "Eu sou a tua salvação." Quem sou eu, e que espécie de homem sou eu? Que mal não houve, ou nas minhas obras, ou, se não nas obras, nas minhas palavras, ou, se não nas palavras, na minha vontade? Mas Vós, Senhor, sois bom e misericordioso, e a vossa destra olhou para a profundidade da minha morte e do fundo do meu coração esgotou o abismo da corrupção. E nisto consistia tudo: não querer o que eu queria e querer o que Vós queríeis. Mas onde, por tão longo tempo, e de que recôndito íntimo e profundo foi evocado num instante o meu livre-arbítrio, com que submeti a cerviz ao vosso jugo suave e os ombros à vossa carga leve, ó Cristo Jesus, meu auxílio e meu redentor? Quão doce de súbito me foi carecer das doçuras das ninharias, e o que receava perder já era alegria deixar. Pois Vós as lançáveis para fora de mim, ó verdadeira e suma doçura; lançáveis-las para fora e entráveis em seu lugar, mais doce que todo prazer, mas não para a carne e o sangue, mais claro que toda luz, mas mais interior que todo segredo, mais sublime que toda honra, mas não para os que em si mesmos se julgam sublimes. Já estava livre a minha alma das mordazes inquietações de ambicionar, e adquirir, e revolver-se na lama, e coçar a sarna das paixões; e eu balbuciava para Vós, minha claridade e minhas riquezas e minha salvação, Senhor meu Deus.