Confissões - Livro IX 3
Livro IX: o batismo, a vida em Cassicíaco e a morte de Mônica em Óstia
Atormentava-se de angústia Verecundo por causa deste nosso bem, pois via que, por causa de seus laços, com que mui tenazmente era retido, seria separado de nossa companhia. Ainda não cristão, tendo esposa fiel, era no entanto por ela mesma, grilhão mais apertado que todos os outros, retardado do caminho que havíamos empreendido; e dizia não querer ser cristão de outro modo senão daquele em que não podia. Com bondade, na verdade, ofereceu que, enquanto ali estivéssemos, estivéssemos em sua propriedade. Recompensá-lo-eis, Senhor, na ressurreição dos justos, pois já lhe recompensastes com a própria sorte deles. Pois, ainda que ausentes nós, estando já em Roma, acometido de enfermidade corporal e nela feito cristão e fiel, partiu desta vida. Assim tivestes misericórdia não só dele, mas também de nós, para que, lembrando-nos da insigne bondade do amigo para conosco e não podendo contá-lo no vosso rebanho, não fôssemos atormentados por dor intolerável. Graças a Vós, nosso Deus! Vossos somos. Indicam-no as vossas exortações e consolações: fiel cumpridor de promessas, retribuís a Verecundo, por aquele campo seu de Cassicíaco, onde do ardor do século repousamos em Vós, a amenidade do vosso paraíso sempiternamente verdejante, pois lhe perdoastes os pecados sobre a terra, no monte fértil de leite, vosso monte, monte abundante.
Angustiava-se, pois, naquele tempo, este; Nebrídio, porém, alegrava-se conosco. Pois ainda que ele também, não sendo ainda cristão, houvesse caído naquela cova do erro perniciosíssimo, de modo a crer que a carne da vossa Verdade, vosso Filho, fosse um fantasma, todavia, emergindo daí, assim estava consigo, não ainda imbuído de nenhum dos sacramentos da vossa Igreja, mas ardentíssimo investigador da verdade. A este, não muito depois de nossa conversão e regeneração pelo vosso batismo, sendo ele já fiel católico, servindo-Vos na África entre os seus com castidade perfeita e continência, tendo toda a sua casa, por meio dele, se tornado cristã, libertastes da carne. E agora ele vive no seio de Abraão. O que quer que seja aquilo que por aquele seio se significa, ali vive o meu Nebrídio, meu doce amigo, mas vosso, Senhor, filho adotivo de liberto: ali vive. Pois que outro lugar há para tal alma? Ali vive, donde me interrogava muitas coisas, a mim, homenzinho inexperiente. Já não põe o ouvido à minha boca, mas a boca espiritual à vossa fonte, e bebe quanto pode a sabedoria, segundo a sua avidez, sem fim feliz. Nem assim penso que se embriaga dela a ponto de se esquecer de mim, pois Vós, Senhor, a quem ele bebe, sois lembrado de nós. Assim, pois, estávamos: consolando Verecundo, entristecido (salva a amizade) por tal conversão nossa, e exortando-o à fé própria do seu grau, isto é, da vida conjugal; e aguardando Nebrídio para que nos seguisse, o que de tão perto podia. E estava já a ponto de fazê-lo, quando eis que afinal se passaram aqueles dias. Pois longos e muitos pareciam, ante o amor da liberdade ociosa para cantar das entranhas todas. A Vós disse o meu coração: "Busquei a vossa face; a vossa face, Senhor, buscarei."