Confissões - Livro IX 10
Livro IX: o batismo, a vida em Cassicíaco e a morte de Mônica em Óstia
Aproximando-se o dia em que ela havia de partir desta vida (dia que Vos conhecíeis, mas que nós ignorávamos), aconteceu, segundo creio, por vossa providência e por vossos modos ocultos, que eu e ela ficássemos a sós, debruçados a certa janela, donde se via o jardim da casa que nos hospedava, ali em Óstia do Tibre, onde, afastados das multidões, depois da fadiga de longa viagem, repousávamos para a travessia do mar. Conversávamos, pois, a sós, muito docemente e, esquecendo-nos das coisas passadas e estendendo-nos para as que estão diante de nós, indagávamos entre nós, na presença da Verdade, que sois Vós, qual seria a vida eterna dos santos, que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem subiu ao coração do homem. Mas com a boca do coração aspirávamos àquelas correntes celestes de vossa fonte, a fonte da vida que está junto de Vós, para que, dela aspergidos conforme a nossa capacidade, de algum modo pudéssemos meditar coisa tão sublime.
E, levando o diálogo a esse ponto, em que o deleite dos sentidos carnais, por maior que fosse e em qualquer luz corpórea por mais pura que fosse, comparado à suavidade daquela vida não só não parecia digno de comparação, mas nem sequer de menção, erguendo-nos com afeto mais ardente para o próprio Idêntico, percorremos por graus todas as coisas corporais, e o próprio céu, donde o sol, a lua e as estrelas resplandecem sobre a terra. E ainda subíamos mais para dentro, pensando, falando e admirando as vossas obras. E chegamos às nossas mentes e as transcendemos, para alcançarmos a região da abundância indeficiente, onde apascentais Israel para sempre com o pasto da verdade; e ali a vida é a Sabedoria, pela qual são feitas todas estas coisas, as que foram e as que hão de ser; e ela mesma não é feita, mas é assim como foi, e assim será sempre. Ou antes, nela não há ter sido nem haver de ser, mas só o ser, porque é eterna: pois ter sido e haver de ser não é eterno. E enquanto falávamos e aspirávamos a ela, tocamo-la de leve com todo o ímpeto do coração. E suspiramos, e ali deixamos presas as primícias do espírito, e retornamos ao ruído de nossa boca, onde a palavra começa e termina. E que há de semelhante à vossa Palavra, nosso Senhor, que permanece em si mesmo sem envelhecer e renova todas as coisas?
Dizíamos, pois: se a alguém se calasse o tumulto da carne, se calassem as imagens da terra, das águas e do ar, se calassem também os céus, e a própria alma se calasse a si mesma e se ultrapassasse, não pensando em si; se se calassem os sonhos e as revelações imaginárias, toda língua e todo sinal, e tudo o que existe só passando, se a alguém isso se calasse de todo (pois, se alguém ouvisse, todas estas coisas dizem: 'não fomos nós que nos fizemos, mas fez-nos Aquele que permanece para sempre'); ditas estas coisas, se elas então se calassem, por terem erguido o ouvido para Aquele que as fez, e Ele só falasse, não por elas mas por si mesmo, de modo que ouvíssemos a sua palavra, não por língua de carne, nem por voz de anjo, nem por estrondo de nuvem, nem por enigma de semelhança, mas a Ele mesmo, a quem nestas coisas amamos, a Ele mesmo ouvíssemos sem elas (como agora nos estendemos e, com rápido pensamento, tocamos a eterna Sabedoria que permanece sobre todas as coisas); se isto continuasse e fossem retiradas as outras visões de gênero muito inferior, e esta única arrebatasse, absorvesse e recolhesse nos gozos interiores o seu contemplador, de modo que a vida sempiterna fosse tal qual foi aquele momento de entendimento por que suspiramos, não seria isto o 'entra no gozo do teu Senhor'? E isso, quando? Acaso quando todos ressurgirmos, mas nem todos seremos transformados?
Tais coisas dizia eu, ainda que não deste modo nem com estas palavras; contudo, Senhor, Vós sabeis que naquele dia, enquanto falávamos tais coisas e este mundo, em meio às nossas palavras, se nos tornava vil com todos os seus deleites, ela então disse: 'Filho, quanto a mim, já não me deleito com coisa alguma nesta vida. Que faço eu ainda aqui, e por que aqui estou, não sei, já consumada a esperança deste século. Uma só coisa havia, pela qual desejava demorar-me um pouco nesta vida: ver-te cristão católico antes de morrer. Mais abundantemente mo concedeu o meu Deus, pois te vejo até desprezar a felicidade terrena e feito servo seu. Que faço eu aqui?'