Confissões - Livro IV 6

Livro IV: os anos de professor de retórica, a morte do amigo e a astrologia

Mas por que digo estas coisas? Pois agora não é tempo de indagar, mas de me confessar a Vós. Miserável eu era, e miserável é toda alma presa pela amizade das coisas mortais, e é dilacerada quando as perde, e então sente a miséria pela qual era miserável antes mesmo de perdê-las. Assim eu estava naquele tempo, e chorava amarguíssimamente, e descansava na amargura. Tão miserável eu era, e tinha por mais cara do que aquele meu amigo a própria vida miserável. Pois, ainda que quisesse mudá-la, não queria, contudo, perdê-la mais do que a ele, e não sei se a quereria perder até por ele, como se conta de Orestes e Pílades (se não for invenção), que desejariam morrer um pelo outro, ou juntos, sendo para eles pior do que essa morte não viver juntos. Mas em mim surgira não sei que afeto demasiado contrário a este, e havia em mim um tédio gravíssimo de viver e um medo de morrer. Creio que, quanto mais o amava, tanto mais a morte, que mo arrebatara, eu odiava e temia como inimiga atrocíssima, e julgava que ela de repente consumiria todos os homens, que pudera consumi-lo a ele. Assim eu estava de todo, recordo-me. Eis o meu coração, Deus meu, eis o seu interior. Vede, porque me recordo, ó minha esperança, Vós que me purificais da imundície de tais afetos, dirigindo os meus olhos para Vós e arrancando do laço os meus pés. Pois me admirava de que os outros mortais vivessem, que aquele, a quem eu amara como se nunca houvesse de morrer, estava morto; e mais me admirava de que eu, sendo ele um outro eu mesmo, vivesse, estando ele morto. Bem disse alguém do seu amigo: 'metade de minha alma'. Pois eu senti que a minha alma e a alma dele tinham sido uma alma em dois corpos, e por isso a vida me era horror, porque eu não queria viver pela metade; e por isso talvez temesse morrer, para que não morresse por inteiro aquele a quem muito amara.