Confissões - Livro IV 7

Livro IV: os anos de professor de retórica, a morte do amigo e a astrologia

Ó loucura, que não sabe amar os homens humanamente! Ó homem insensato, que suportava sem medida as coisas humanas! Tal era eu então. E assim ardia, suspirava, chorava, perturbava-me, e não havia descanso nem conselho. Pois carregava a minha alma despedaçada e ensanguentada, impaciente por ser carregada por mim, e não achava onde a pousasse. Não nos bosques aprazíveis, não nos jogos e cantos, nem nos lugares de suave aroma, nem nos banquetes preparados, nem no prazer do leito e da cama, nem, enfim, nos livros e nos poemas ela encontrava sossego. Tudo me horrorizava, até a própria luz; e tudo o que não era o que ele era, ímprobo e odioso me parecia, exceto o gemido e as lágrimas: pois neles havia algum pouco de descanso. Mas, quando dali se afastava a minha alma, sobrecarregava-me com o grande fardo da miséria. A Vós, Senhor, devia ela ser erguida para ser aliviada e curada, eu o sabia, mas não o queria nem o podia, tanto mais porque, quando pensava em Vós, não éreis para mim algo sólido e firme. Pois não éreis Vós, mas um vão fantasma, e o meu erro era o meu deus. Se tentava ali pousá-la para que descansasse, escorregava pelo vazio e de novo desabava sobre mim, e eu permanecia para mim mesmo um lugar infeliz, onde nem podia estar nem dali retirar-me. Para onde fugiria o meu coração para longe do meu coração? Para onde fugiria de mim mesmo? Para onde não me seguiria a mim mesmo? E, no entanto, fugi da pátria. Pois menos o buscavam os meus olhos onde não costumavam vê-lo, e da cidade de Tagaste vim a Cartago.