Confissões - Livro III 3

Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo

E pairava sobre mim, de longe, a vossa misericórdia fiel. Em quantas iniquidades me consumi, e segui uma curiosidade sacrílega, que, tendo-vos eu abandonado, me conduzisse aos abismos da infidelidade e ao serviço enganoso e ardiloso dos demônios, aos quais imolava as minhas más ações! E em tudo isso me flageláveis. Ousei até, na celebração das vossas solenidades, dentro das paredes da vossa Igreja, cobiçar e tratar de negócio que me rendesse os frutos da morte. Por isso me açoitastes com graves penas, mas nada em comparação com a minha culpa, ó vós, minha imensa misericórdia, meu Deus, meu refúgio contra aqueles terríveis destruidores entre os quais vaguei de pescoço empertigado, afastando-me cada vez mais de vós, amando os meus caminhos e não os vossos, amando uma liberdade fugitiva.
Tinham também aqueles estudos, que se chamavam honestos, o seu rumo voltado para os foros litigiosos, a fim de que eu neles me distinguisse, tanto mais louvado quanto mais fraudulento. Tão grande é a cegueira dos homens, que até da própria cegueira se gloriam. E era eu o primeiro na escola do retórico, e soberbamente me alegrava, e me inchava de orgulho, embora muito mais sereno, Senhor, vós o sabeis, e de todo afastado das devastações que faziam os Devastadores (pois este nome sinistro e diabólico era como que o emblema da gentileza urbana), entre os quais eu vivia com um pudor sem-vergonha, por não ser tal qual eles. E com eles estava, e às vezes me deleitava com as suas amizades, mas sempre me horrorizava com os seus atos, isto é, com aquelas devastações com que insolentemente perseguiam o recato dos desconhecidos, perturbando-o com escárnio gratuito e dele alimentando as suas alegrias malévolas. Nada mais semelhante àquele ato do que os atos dos demônios. Que, pois, mais verdadeiramente se haviam de chamar do que Devastadores, sendo eles mesmos primeiro plenamente devastados e pervertidos, escarnecendo-os e seduzindo-os ocultamente os espíritos falazes, naquilo mesmo em que amam escarnecer e enganar os outros.