Confissões - Livro III 4
Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo
Entre tais homens, naquela idade ainda inconstante, eu aprendia os livros da eloquência, na qual desejava sobressair, com um fim condenável e vaidoso, pelo gozo da vaidade humana. E, pela ordem já habitual dos estudos, eu chegara a um livro de um certo Cícero, cuja língua quase todos admiram, mas o coração não tanto. Esse livro, porém, contém uma exortação à filosofia e chama-se "Hortênsio". Ora, aquele livro mudou o meu afeto, e para Vós mesmo, Senhor, mudou as minhas preces, e fez outros os meus votos e desejos. De repente toda esperança vã se aviltou para mim, e eu cobiçava a imortalidade da sabedoria com um incrível ardor do coração, e começava já a levantar-me para retornar a Vós. Pois não era para aguçar a língua, coisa que eu parecia comprar com os recursos de minha mãe, quando cursava o décimo nono ano de idade, já morto meu pai dois anos antes, não era, portanto, para aguçar a língua que eu lia aquele livro: não foi o modo de falar, mas o que ele dizia que me persuadiu.
Como eu ardia, meu Deus, como eu ardia por voar de volta das coisas terrenas a Vós, e não sabia o que fazíeis comigo! Pois em Vós está a sabedoria. Mas o amor da sabedoria tem em grego o nome de filosofia, e era com ele que aquelas letras me inflamavam. Há os que seduzem por meio da filosofia, colorindo e disfarçando os seus erros com um nome grande, agradável e honesto; e quase todos os que naqueles tempos e nos anteriores eram tais são assinalados e mostrados naquele livro, e ali se manifesta aquela salutar advertência do vosso Espírito, por meio do vosso servo bom e piedoso: "Vede que ninguém vos engane por meio da filosofia e de vã sedução, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos deste mundo, e não segundo Cristo, porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." E eu, naquele tempo, Vós o sabeis, luz do meu coração, visto que estas palavras apostólicas ainda não me eram conhecidas, com isto só me deleitava naquela exortação: que ela me incitava a amar, buscar, alcançar, reter e abraçar fortemente não esta ou aquela seita, mas a própria sabedoria, qualquer que fosse; e com aquele discurso eu me excitava, me inflamava e ardia. E só isto me refreava em meio a tanto ardor: que o nome de Cristo não estava ali. Pois este nome, segundo a vossa misericórdia, Senhor, este nome do meu Salvador, vosso Filho, o meu tenro coração havia piedosamente bebido ainda com o leite materno e o retinha no fundo; e tudo o que estivesse sem este nome, por mais erudito, polido e verídico que fosse, não me arrebatava por inteiro.