Confissões - Livro I 5
Livro I: a infância e a meninice, o aprendizado da fala e os castigos da escola
Quem me dará repousar em Vós? Quem me concederá que venhais ao meu coração e o embriagueis, para que eu esqueça os meus males e abrace o meu único bem, a Vós? Que sois para mim? Compadecei-Vos, para que eu possa falar. Que sou eu mesmo para Vós, que me ordenais amar-Vos, e, se não o fizer, Vos irais comigo e me ameaçais com imensas misérias? Acaso é pequena miséria não Vos amar? Ai de mim! Dizei-me, por vossas misericórdias, Senhor meu Deus, o que sois para mim. Dizei à minha alma: 'Eu sou a tua salvação.' Dizei-o de tal modo que eu ouça. Eis diante de Vós, Senhor, os ouvidos do meu coração. Abri-os e dizei à minha alma: 'Eu sou a tua salvação.' Correrei após esta voz e Vos alcançarei. Não escondais de mim a vossa face: que eu morra, para não morrer, a fim de a contemplar.
Estreita é a casa da minha alma para que a ela venhais: dilatai-a Vós. Está em ruínas: reparai-a. Tem coisas que ofendem os vossos olhos: confesso-o e o sei. Mas quem a purificará? Ou a quem outro, senão a Vós, clamarei: 'Das minhas faltas ocultas purificai-me, Senhor, e das alheias poupai o vosso servo?' Creio, e por isso também falo, Senhor: Vós o sabeis. Não declarei eu diante de Vós, contra mim mesmo, os meus delitos, Deus meu, e Vós perdoastes a impiedade do meu coração? Não contendo em juízo convosco, que sois a verdade; e eu não quero enganar-me a mim mesmo, para que a minha iniquidade não minta a si própria. Não contendo, pois, em juízo convosco, porque, se observardes as iniquidades, Senhor, Senhor, quem subsistirá?