Confissões - Livro I 6

Livro I: a infância e a meninice, o aprendizado da fala e os castigos da escola

Mas permiti, contudo, que eu fale diante de vossa misericórdia, eu que sou terra e cinza; permiti, no entanto, que eu fale. Pois eis que é a vossa misericórdia que escuto, não um homem, escarnecedor meu, a quem dirijo a palavra. E talvez também Vos escarneçais de mim, mas, voltando-Vos, tereis compaixão de mim. Que é, pois, o que quero dizer, Senhor, senão que ignoro de onde vim aqui, a esta, digo eu, vida mortal, ou morte vital? Não sei. E acolheram-me as consolações de vossas miserações, conforme ouvi dos pais de minha carne, daquele de quem e naquela em quem me formastes no tempo: pois eu mesmo não me lembro. Acolheram-me, portanto, as consolações do leite humano, e não era minha mãe nem minhas amas que enchiam para si os próprios peitos, mas Vós, por meio delas, me dáveis o alimento da infância, segundo vossa instituição e as riquezas que dispusestes até o fundo das coisas. Vós também me dáveis não querer mais do que dáveis, e aquelas que me nutriam dar-me o que queríeis dar a elas: pois desejavam dar-me, por afeto ordenado, aquilo de que abundavam por Vós. Pois era bem para elas o meu bem que delas vinha, o qual não delas, mas por elas vinha. De Vós, com efeito, vêm todos os bens, ó Deus, e do meu Deus me vem toda a salvação. Isto adverti depois, quando me clamáveis por meio destas mesmas coisas que concedeis por dentro e por fora. Pois então eu sabia mamar e aquietar-me nos prazeres, e chorar as ofensas de minha carne, nada mais.
Depois comecei também a rir, primeiro dormindo, depois desperto. Isto me foi indicado a meu respeito, e cri, pois assim vemos outras crianças: pois destas minhas coisas não me lembro. E eis que aos poucos sentia onde estava, e queria mostrar minhas vontades àqueles por quem fossem satisfeitas, e não podia, porque aquelas estavam dentro, e eles, porém, fora, e por nenhum sentido seu eram capazes de entrar em minha alma. Por isso agitava os membros e a voz, sinais semelhantes às minhas vontades, os poucos que podia, quais podia: pois não eram verdadeiramente semelhantes. E quando não me obedeciam, ou por não terem entendido, ou para que não me prejudicasse, eu me indignava com os maiores que não se sujeitavam e com os livres que não me serviam, e me vingava deles chorando. Que as crianças sejam assim, aprendi com aquelas que pude observar, e que eu mesmo fora tal mais me indicaram, sem saber, as que me criavam do que as que sabiam.
E eis que minha infância muito morreu, e eu vivo. Mas Vós, Senhor, que sempre viveis e em quem nada morre, porque antes dos primórdios dos séculos, e antes de tudo o que pode sequer ser dito 'antes', Vós sois, e sois Deus e Senhor de todas as coisas que criastes, e junto de Vós estão firmes as causas de todas as coisas instáveis, e permanecem imutáveis as origens de todas as coisas mutáveis, e vivem sempiternas as razões de todas as coisas irracionais e temporais: dizei-me, a vosso suplicante, ó Deus, e misericordioso, dizei-me a mim, vosso miserável, se a alguma idade minha morta sucedeu a minha infância. Ou será ela aquela que vivi nas entranhas de minha mãe? Pois também dela algo me foi indicado, e eu mesmo vi mulheres grávidas. E que houve antes disto, doçura minha, Deus meu? Estive eu em algum lugar ou fui alguém? Pois quem me diga estas coisas, não tenho; nem o pai nem a mãe puderam, nem a experiência de outros, nem a minha memória. Acaso escarneceis de mim por buscar estas coisas, e me ordenais que Vos louve e Vos confesse pelo que conheço?
Confesso-Vos, Senhor do céu e da terra, dizendo-Vos louvor pelos meus primórdios e pela minha infância, dos quais não me lembro. E concedestes ao homem conjeturar muito sobre si a partir de outros, e crer muito sobre si pela autoridade até de simples mulheres. Pois eu existia e vivia então, e no fim da infância buscava sinais com que tornar conhecidos a outros os meus sentimentos. De onde tal animal, senão de Vós, Senhor? Acaso alguém será artífice de fazer-se a si mesmo? Ou se extrai de outra parte alguma veia pela qual o ser e o viver corram para nós, a não ser que Vós nos façais, Senhor, para quem ser e viver não são uma coisa e outra, porque sumamente ser e sumamente viver são a mesma coisa? Pois sois o Sumo, e não Vos mudais, nem se consuma em Vós o dia de hoje, e contudo em Vós se consuma, porque em Vós estão também todas estas coisas: pois não teriam caminhos por onde passar, se Vós não as contivésseis. E porque os vossos anos não se acabam, os vossos anos são um dia de hoje. E quantos dos nossos dias e dos dias de nossos pais passaram pelo vosso hoje, e dele receberam os modos, e de algum modo existiram, e ainda passarão outros, e receberão, e de algum modo existirão. Mas Vós sois o mesmo, e todas as coisas de amanhã e além, e todas as de ontem e atrás, hoje as fareis, hoje as fizestes. Que me importa, se alguém não entende? Alegre-se ele também dizendo: 'Que é isto?' Alegre-se assim mesmo, e prefira encontrar-Vos não encontrando, a não Vos encontrar encontrando.