Confissões - Livro I 4
Livro I: a infância e a meninice, o aprendizado da fala e os castigos da escola
Que sois Vos, pois, meu Deus? Que sois, eu Vos pergunto, senão o Senhor Deus? Pois quem é Senhor além do Senhor? Ou quem é Deus além do nosso Deus? Sumamente alto, sumamente bom, sumamente poderoso, onipotentíssimo, misericordiosíssimo e justíssimo, secretíssimo e presentíssimo, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável que tudo mudais, nunca novo e nunca velho, que tudo renovais e conduzis à velhice os soberbos, e eles não o percebem. Sempre em ação e sempre em repouso, recolhendo e de nada carecendo, sustentando e enchendo e protegendo, criando e nutrindo e aperfeiçoando, buscando ainda que nada Vos falte. Amais, mas sem ardor; sois zeloso, mas sem inquietação; arrependeis-Vos, mas sem sofrer; irais-Vos, mas permaneceis tranquilo; mudais as vossas obras, mas não mudais o vosso desígnio; recebeis de volta o que encontrais, e jamais o perdestes. Nunca indigente, e contudo Vos alegrais com os ganhos; nunca avaro, e contudo exigis os juros. Paga-se-Vos além do devido, para que fiqueis devedor: e quem possui algo que não seja vosso? Pagais dívidas a ninguém devendo, perdoais dívidas nada perdendo. E que dissemos, meu Deus, minha vida, minha doçura santa? Ou que diz alguém quando de Vós fala? E ai dos que de Vós se calam, pois os que muito falam estão como mudos.