A Cidade de Deus - Livro XXII 8
Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne
Dos milagres que se realizaram para que o mundo cresse em Cristo, e que não cessaram desde que o mundo creu
Por que, dizem eles, esses milagres que afirmais terem sido realizados outrora já não se realizam? Eu poderia, na verdade, responder que os milagres eram necessários antes que o mundo cresse, a fim de que ele cresse. E quem hoje em dia exige ver prodígios para crer é ele mesmo um grande prodígio, porque não crê, ainda que o mundo inteiro creia. Mas eles fazem tais objeções com o único propósito de insinuar que mesmo aqueles milagres antigos jamais se realizaram. Como, então, se explica que em toda parte Cristo seja celebrado com tão firme fé em sua ressurreição e ascensão?
Como se explica que, em tempos esclarecidos, nos quais toda impossibilidade é rejeitada, o mundo tenha, sem nenhum milagre, crido em coisas maravilhosamente incríveis? Ou dirão eles que essas coisas eram críveis e, portanto, foram cridas? Por que, então, eles mesmos não creem? Nosso argumento, portanto, é resumido: ou coisas incríveis que não foram testemunhadas levaram o mundo a crer em outras coisas incríveis que ocorreram e foram testemunhadas, ou esta matéria era tão crível que não precisava de milagres para prová-la, e nesse caso convence estes incrédulos de um ceticismo imperdoável.
Isto eu poderia dizer com o fim de refutar estes objetores tão frívolos. Mas não podemos negar que muitos milagres se realizaram para confirmar aquele único e grandioso milagre salvífico da ascensão de Cristo ao céu com a carne na qual ressuscitou. Pois estes nossos livros, tão dignos de confiança, contêm numa só narrativa tanto os milagres que se realizaram quanto o credo que eles foram realizados para confirmar. Os milagres foram divulgados para que produzissem fé, e a fé que produziram trouxe-os a maior destaque. Pois são lidos nas congregações para que sejam cridos, e contudo não seriam assim lidos se não fossem cridos.
Pois ainda agora milagres se realizam em nome de Cristo, seja por seus sacramentos, seja pelas orações ou relíquias de seus santos; mas não são tão brilhantes e notáveis que sejam divulgados com a glória que acompanhou os milagres antigos. Pois o cânone das sagradas escrituras, que devia ser encerrado, faz com que aqueles sejam recitados em toda parte e gravados na memória de todas as congregações; mas estes milagres modernos mal são conhecidos sequer por toda a população no meio da qual se realizam, e, no melhor dos casos, ficam confinados a um único lugar.
Pois frequentemente só são conhecidos por pouquíssimas pessoas, enquanto todas as demais os ignoram, especialmente se a cidade é grande; e quando são relatados a outras pessoas em outras localidades, não há autoridade suficiente para lhes dar crédito pronto e inabalável, ainda que sejam relatados aos fiéis por fiéis.
O milagre que se realizou em Milão, quando ali estive, e pelo qual um cego recuperou a vista, pôde chegar ao conhecimento de muitos; pois não só a cidade é grande, como também o imperador ali se encontrava naquele tempo, e o acontecimento foi testemunhado por imensa multidão de pessoas que se haviam reunido junto aos corpos dos mártires Protásio e Gervásio, os quais por muito tempo jaziam ocultos e desconhecidos, mas que então foram revelados ao bispo Ambrósio num sonho e por ele descobertos. Pela virtude desses restos, as trevas daquele cego se dissiparam, e ele viu a luz do dia.
Mas quem, senão um número muito reduzido, tem conhecimento da cura que se operou em Inocêncio, ex-advogado da prefeitura adjunta, cura realizada em Cartago, em minha presença e sob os meus próprios olhos? Pois quando eu e meu irmão Alípio, que ainda não éramos clérigos, embora já servos de Deus, viemos do estrangeiro, este homem nos acolheu e nos fez morar com ele, pois ele e toda a sua casa eram devotamente piedosos. Era tratado por médicos de fístulas, das quais tinha grande número, intrincadamente assentadas no reto. Já havia se submetido a uma operação, e os cirurgiões empregavam todos os meios ao seu alcance para o aliviar.
Naquela operação ele havia sofrido dor prolongada e aguda; contudo, entre as muitas dobras do intestino, uma escapara aos operadores de tal modo que, embora devessem tê-la aberto com o bisturi, jamais a tocaram. E assim, embora todas as que haviam sido abertas estivessem curadas, esta permaneceu como estava e frustrou todo o trabalho deles.
O paciente, tendo despertado suas suspeitas pela demora assim ocasionada, e temendo grandemente uma segunda operação, que outro médico, um dos seus próprios domésticos, lhe dissera que teria de sofrer, embora a este homem nem sequer se tivesse permitido testemunhar a primeira operação, e tivesse sido banido da casa e com dificuldade readmitido à presença do senhor enfurecido, o paciente, repito, irrompeu contra os cirurgiões, dizendo: "Ides cortar-me de novo?
Ireis, afinal, cumprir a predição daquele homem a quem nem sequer permitistes que estivesse presente?" Os cirurgiões riram do médico inexperiente e acalmaram os temores do paciente com belas palavras e promessas. Assim, passaram-se vários dias, e contudo nada do que tentaram lhe fez bem. Ainda assim, persistiam em prometer que curariam aquela fístula com remédios, sem o bisturi. Chamaram também outro praticante idoso de grande reputação naquela especialidade, Amônio (pois ainda vivia naquele tempo); e ele, após examinar a parte, prometeu o mesmo resultado que eles, mediante seu cuidado e perícia.
Apoiado nessa grande autoridade, o paciente ganhou confiança e, como se já estivesse bem, deu vazão ao seu bom humor com observações jocosas à custa do seu médico doméstico, que predissera uma segunda operação. Para resumir uma longa história, depois que assim transcorreram inutilmente muitos dias, os cirurgiões, exaustos e confusos, tiveram por fim de confessar que ele só poderia ser curado pelo bisturi. Agitado por excessivo temor, ficou apavorado e empalideceu de pavor; e quando se recompôs e pôde falar, ordenou que se retirassem e nunca mais voltassem.
Esgotado de tanto chorar e impelido pela necessidade, ocorreu-lhe chamar um alexandrino que naquele tempo era tido como operador maravilhosamente hábil, para que realizasse a operação que sua ira não permitia que aqueles fizessem.
Mas quando este chegou e examinou com olho profissional os vestígios do trabalho cuidadoso deles, agiu como homem de bem e persuadiu seu paciente a permitir que aquelas mesmas mãos tivessem a satisfação de concluir a cura que haviam começado com uma perícia que lhe excitava a admiração, acrescentando que não havia dúvida de que sua única esperança de cura era por uma operação, mas que era totalmente contrário à sua índole arrebatar o crédito da cura fazendo o pouco que restava por fazer, e roubar a recompensa de homens cuja consumada perícia, cuidado e diligência ele não podia deixar de admirar ao ver os vestígios do seu trabalho.
Foram, portanto, novamente recebidos em graça; e ficou combinado que, na presença do alexandrino, operariam a fístula que, por consenso de todos, agora só podia ser curada pelo bisturi. A operação foi adiada para o dia seguinte. Mas, quando se retiraram, ergueu-se na casa tamanho lamento, em solidariedade com o excessivo abatimento do senhor, que nos pareceu como o pranto de um funeral, e mal conseguíamos reprimi-lo.
Homens santos costumavam visitá-lo diariamente: Saturnino, de abençoada memória, naquele tempo bispo de Uzala, e o presbítero Geloso, e os diáconos da igreja de Cartago; e entre estes estava o bispo Aurélio, único de todos eles que ainda sobrevive, homem que devemos nomear com a devida reverência, e com ele muitas vezes conversei sobre este caso, enquanto departíamos juntos acerca das obras maravilhosas de Deus, e verifiquei que ele se recorda distintamente do que ora relato.
Quando estas pessoas o visitaram naquela tarde, segundo seu costume, ele lhes suplicou, com lágrimas dignas de compaixão, que lhe fizessem a honra de estarem presentes no dia seguinte ao que ele julgava ser antes o seu funeral do que o seu sofrimento. Pois tal era o terror que suas dores anteriores haviam produzido, que ele não duvidava de que morreria nas mãos dos cirurgiões. Eles o consolaram e o exortaram a depositar a confiança em Deus e a fortalecer a vontade como homem.
Em seguida, fomos à oração; mas enquanto nós, à maneira habitual, estávamos ajoelhados e curvados ao chão, ele se lançou por terra, como se alguém o arremessasse violentamente ao solo, e começou a orar; mas de que modo, com que fervor e emoção, com que torrente de lágrimas, com que gemidos e soluços, que sacudiam todo o seu corpo e quase o impediam de falar, quem poderia descrever! Se os outros oravam, e não tinham a atenção inteiramente desviada por tal procedimento, não sei. Quanto a mim, não conseguia orar de modo algum.
Isto apenas disse brevemente em meu coração: "Ó Senhor, que orações do vosso povo atendeis, se não atendeis a estas?" Pois pareceu-me que nada poderia acrescentar-se a esta oração, a não ser que ele expirasse orando. Levantamo-nos de joelhos e, recebendo a bênção do bispo, partimos, suplicando o paciente aos visitantes que estivessem presentes na manhã seguinte, exortando-o eles a manter o ânimo. Despontou o dia temido. Os servos de Deus se fizeram presentes, como haviam prometido; os cirurgiões chegaram; tudo o que as circunstâncias exigiam estava pronto; os terríveis instrumentos são exibidos; todos olham, em assombro e suspense.
Enquanto aqueles que têm maior influência sobre o paciente animam-lhe o espírito desfalecido, seus membros são dispostos sobre o leito de modo a acomodar a mão do operador; os nós das ataduras são desatados; a parte é desnudada; o cirurgião examina-a e, com o bisturi em mãos, busca avidamente o seio que deve ser cortado. Procura-o com os olhos; apalpa-o com o dedo; aplica todo tipo de exame: encontra uma cicatriz perfeitamente firme! Nenhuma palavra minha pode descrever a alegria, o louvor e a ação de graças ao Deus misericordioso e todo-poderoso, que jorrou dos lábios de todos, com lágrimas de júbilo.
Que a cena seja imaginada, antes que descrita!
Na mesma cidade de Cartago vivia Inocência, mulher muito devota e da mais alta posição no Estado. Tinha câncer em um dos seios, doença que, como dizem os médicos, é incurável. Ordinariamente, portanto, ou amputam e assim separam do corpo o membro de que a doença se apoderou, ou, para que a vida do paciente se prolongue um pouco, embora a morte seja inevitável ainda que algo retardada, abandonam todos os remédios, seguindo, como dizem, o conselho de Hipócrates. Isto fora aconselhado à senhora de quem falamos por um médico hábil, que era íntimo de sua família; e ela recorreu somente a Deus pela oração.
Ao aproximar-se a Páscoa, foi instruída num sonho a esperar pela primeira mulher que saísse do batistério depois de batizada, e a pedir-lhe que fizesse o sinal de Cristo sobre a sua chaga. Assim fez, e foi imediatamente curada. O médico que a aconselhara a não aplicar remédio algum, se quisesse viver um pouco mais, quando a examinou depois disso e constatou que aquela que, em seu exame anterior, estava afligida por aquela doença, estava agora perfeitamente curada, perguntou-lhe ansiosamente que remédio usara, desejoso, como bem podemos crer, de descobrir o fármaco que derrotaria a sentença de Hipócrates.
Mas quando ela lhe contou o que acontecera, diz-se que respondeu, com religiosa cortesia, embora em tom desdenhoso e com uma expressão que a fez temer que ele proferisse alguma blasfêmia contra Cristo: "Pensei que me farias alguma grande revelação." Ela, estremecendo diante de tal indiferença, prontamente respondeu: "Que grande coisa foi para Cristo curar um câncer, ele que ressuscitou alguém que estava morto havia quatro dias?" Quando, portanto, ouvi isto, fiquei extremamente indignado de que tão grande milagre, realizado naquela conhecida cidade e numa pessoa que certamente não era obscura, não fosse divulgado, e julguei que se lhe devia falar, se não repreendê-la a esse respeito.
E quando ela me respondeu que não havia silenciado sobre o assunto, perguntei às mulheres com quem ela tinha maior convívio se alguma vez haviam ouvido falar disso antes. Disseram-me que nada sabiam a respeito. "Vede", disse eu, "no que dá o vosso não silenciar, pois nem mesmo aquelas que vos são tão familiares têm conhecimento disso." E como eu só ouvira a história brevemente, fi-la contar como tudo se passara, do princípio ao fim, enquanto as outras mulheres escutavam com grande assombro e glorificavam a Deus.
Um médico gotoso da mesma cidade, quando havia dado seu nome para o batismo, e fora proibido, na véspera do seu batismo, de ser batizado naquele ano por uns meninos negros de cabelo crespo que lhe apareceram em sonhos, e que ele entendeu serem demônios, e quando, embora pisassem em seus pés e lhe infligissem a dor mais aguda que jamais experimentara, recusou-se a obedecer-lhes, mas os venceu e não quis adiar ser lavado na fonte da regeneração, foi aliviado no próprio ato do batismo, não só da extraordinária dor com que era atormentado, mas também da própria doença, de modo que, embora vivesse longo tempo depois, jamais sofreu de gota; e contudo quem tem conhecimento deste milagre? Nós, porém, o conhecemos, e assim também o pequeno número de irmãos que estavam nas vizinhanças e a cujos ouvidos pôde chegar.
Um velho comediante de Curubis foi curado no batismo não só de paralisia, mas também de hérnia, e, livre de ambas as enfermidades, saiu da fonte da regeneração como se nada tivesse de errado em seu corpo. Quem, fora de Curubis, sabe disto, ou quem, senão pouquíssimos que talvez o ouvissem alhures? Mas nós, ao ouvirmos isso, fizemos o homem vir a Cartago, por ordem do santo bispo Aurélio, embora já tivéssemos averiguado o fato pela informação de pessoas cuja palavra não podíamos pôr em dúvida.
Hespério, de família tribunícia e nosso vizinho, possui uma propriedade chamada Zubedi, no distrito fussaliano; e, vendo que sua família, seu gado e seus servos sofriam pela malícia de espíritos malignos, pediu aos nossos presbíteros, durante minha ausência, que um deles fosse com ele e expulsasse os espíritos por suas orações. Um foi, ofereceu ali o sacrifício do corpo de Cristo, orando com todas as suas forças para que aquela vexação cessasse. Cessou imediatamente, pela misericórdia de Deus. Ora, ele recebera de um amigo seu um pouco de terra santa trazida de Jerusalém, onde Cristo, tendo sido sepultado, ressuscitou ao terceiro dia.
Esta terra ele pendurara em seu quarto para preservar-se de todo mal. Mas, quando sua casa foi purificada daquela invasão demoníaca, começou a considerar o que devia fazer com a terra; pois a reverência que lhe tinha o tornava relutante em mantê-la por mais tempo em seu quarto. Aconteceu que eu e Maximino, bispo de Sinita, então meu colega, estávamos nas vizinhanças. Hespério pediu-nos que o visitássemos, e assim fizemos. Quando nos relatou todas as circunstâncias, suplicou que a terra fosse sepultada em algum lugar, e que o local fosse feito lugar de oração, onde os cristãos pudessem reunir-se para o culto de Deus.
Não fizemos objeção: fez-se como ele desejava. Havia naquela vizinhança um jovem camponês que era paralítico, o qual, ao ouvir disto, suplicou aos pais que o levassem sem demora àquele lugar santo. Tendo sido conduzido até lá, orou e logo se foi por seus próprios pés, perfeitamente curado.
Há uma propriedade rural chamada Vitoriana, a menos de trinta milhas de Hipona-Régia. Nela há um monumento aos mártires milaneses, Protásio e Gervásio. Para lá foi levado um jovem que, dando de beber ao seu cavalo, num dia de verão ao meio-dia, num poço de um rio, fora possuído por um demônio. Enquanto jazia junto ao monumento, à beira da morte, ou mesmo bem como um morto, a senhora da propriedade, com suas servas e acompanhantes religiosas, entrou no lugar para a oração e o louvor da tarde, como era seu costume, e começaram a entoar hinos.
A esse som, o jovem, como que eletrizado, despertou completamente e, com gritos pavorosos, agarrou o altar e o segurou como se não ousasse ou não fosse capaz de soltá-lo, e como se estivesse fixado ou amarrado a ele; e o demônio que estava nele, com altos lamentos, suplicou que fosse poupado, e confessou onde, quando e como tomara posse do jovem. Por fim, declarando que sairia dele, nomeou uma a uma as partes do corpo que ameaçava mutilar ao sair; e com estas palavras apartou-se do homem.
Mas seu olho, saltando-lhe sobre a face, ficou pendurado por uma veia tênue como por uma raiz, e toda a pupila, que fora negra, tornou-se branca. Quando isto foi testemunhado pelos presentes (outros também se haviam agora reunido aos seus gritos, e todos se uniram em oração por ele), embora se alegrassem por ter ele recuperado a sanidade da mente, por outro lado, afligiam-se com o seu olho, e diziam que ele deveria procurar conselho médico.
Mas o marido da irmã, que o trouxera até lá, disse: "Deus, que baniu o demônio, é capaz de restaurar-lhe o olho pelas orações dos seus santos." Em seguida, recolocou o olho que saltara e pendia, e atou-o em seu lugar com seu lenço o melhor que pôde, e aconselhou-o a não soltar a atadura por sete dias. Quando assim fez, encontrou-o inteiramente são. Outros também ali foram curados, mas falar deles seria fastidioso.
Sei que uma jovem de Hipona foi imediatamente livrada de um demônio, ao ungir-se com óleo misturado às lágrimas do presbítero que orara por ela. Sei também que um bispo certa vez orou por um jovem possesso que jamais vira, e que ele foi curado no mesmo instante.
Havia em Hipona um conterrâneo nosso, Florêncio, homem idoso, religioso e pobre, que se sustentava como alfaiate. Tendo perdido seu manto, e não tendo meios de comprar outro, orou aos Vinte Mártires, que têm um santuário comemorativo muito célebre em nossa cidade, suplicando em voz distinta que fosse vestido. Alguns jovens zombadores, que por acaso ali estavam, o ouviram e o seguiram com seus sarcasmos enquanto ele se afastava, como se ele tivesse pedido aos mártires cinquenta moedas para comprar um manto.
Mas ele, seguindo em silêncio, viu na praia um grande peixe, arquejando como se acabasse de ser lançado à terra, e, tendo-o capturado com o auxílio bem-humorado dos jovens, vendeu-o para preparo a um cozinheiro de nome Catoso, bom cristão, contando-lhe como o obtivera, e recebendo por ele trezentas moedas, que empregou em lã, para que sua mulher exercesse nela sua perícia e dela fizesse um manto para ele. Mas, ao retalhar o peixe, o cozinheiro encontrou um anel de ouro em seu ventre; e logo, movido de compaixão e influenciado também por temor religioso, entregou-o ao homem, dizendo: "Vê como os Vinte Mártires te vestiram."
Quando o bispo Projeto levava as relíquias do gloriosíssimo mártir Estêvão às águas de Tibilis, grande multidão de pessoas veio ao seu encontro no santuário. Ali, uma mulher cega rogou que a conduzissem ao bispo que levava as relíquias. Ele lhe deu as flores que trazia. Ela as tomou, aplicou-as aos olhos e logo viu. Os presentes ficaram atônitos, enquanto ela, com toda expressão de júbilo, os precedia, prosseguindo seu caminho sem mais necessidade de guia.
Lucilo, bispo de Sinita, na vizinhança da cidade colonial de Hipona, conduzia em procissão algumas relíquias do mesmo mártir, que haviam sido depositadas no castelo de Sinita. Uma fístula, da qual havia muito padecia, e que seu médico particular espreitava a oportunidade de cortar, foi subitamente curada pelo simples ato de carregar aquele sagrado fardo; ao menos, depois disso não restou dela vestígio algum em seu corpo.
Eucário, sacerdote espanhol, residente em Calama, padeceu por longo tempo de pedra. Pelas relíquias do mesmo mártir, que o bispo Possídio lhe trouxe, foi curado. Depois, o mesmo sacerdote, sucumbindo a outra doença, jazia morto, e já lhe atavam as mãos. Pelo socorro do mesmo mártir foi devolvido à vida, tendo sido trazido o manto do sacerdote do oratório e posto sobre o cadáver.
Havia ali um velho nobre chamado Marcial, que tinha grande aversão à religião cristã, mas cuja filha era cristã, enquanto o marido dela fora batizado naquele mesmo ano. Quando ele adoeceu, suplicaram-lhe com lágrimas e orações que se tornasse cristão, mas ele recusou peremptoriamente e os despediu de sua presença num acesso de indignação. Ocorreu ao genro ir ao oratório de Santo Estêvão e ali orar por ele com toda fervorosa insistência, para que Deus lhe desse um reto entendimento, de modo que não tardasse em crer em Cristo.
Isto fez com grandes gemidos e lágrimas, e o ardente fervor de sincera piedade; depois, ao deixar o lugar, tomou algumas das flores que ali jaziam e, como já era noite, depositou-as junto à cabeça do sogro, que assim adormeceu. E eis que, antes da aurora, ele clama por alguém que corra a chamar o bispo; mas este se encontrava naquele tempo comigo em Hipona. Assim, ao ouvir que ele estava fora, pediu que viessem os presbíteros. Eles vieram. Para júbilo e assombro de todos, declarou que cria, e foi batizado.
Enquanto permaneceu vivo, estas palavras estavam sempre em seus lábios: "Cristo, recebe o meu espírito", embora não soubesse que estas foram as últimas palavras do bem-aventuradíssimo Estêvão quando foi apedrejado pelos judeus. Foram também as suas últimas palavras, pois não muito depois ele mesmo também entregou o espírito.
Ali também, pelo mesmo mártir, dois homens, um cidadão, o outro forasteiro, foram curados de gota; mas, enquanto o cidadão foi absolutamente curado, ao forasteiro apenas se indicou o que deveria aplicar quando a dor voltasse; e, quando ele seguiu esse conselho, a dor foi imediatamente aliviada.
Auduro é o nome de uma propriedade onde há uma igreja que contém um santuário comemorativo do mártir Estêvão. Aconteceu que, enquanto um menino brincava no pátio, os bois que puxavam um carro saíram do trilho e o esmagaram com a roda, de modo que imediatamente pareceu estar no último suspiro. Sua mãe o arrebatou e o deitou junto ao santuário, e não só ele reviveu, como também se mostrou ileso.
Uma mulher religiosa, que vivia em Caspálio, propriedade vizinha, quando estava tão doente que se desesperava de sua vida, teve sua veste levada a este santuário, mas antes que fosse trazida de volta, ela já se fora. Contudo, seus pais envolveram o cadáver com a veste e, voltando-lhe a respiração, ela ficou inteiramente curada.
Em Hipona, um sírio chamado Basso orava junto às relíquias do mesmo mártir por sua filha, que estava perigosamente enferma. Também ele trouxera consigo a veste dela ao santuário. Mas, enquanto orava, eis que seus servos correram da casa para lhe dizer que ela estava morta. Seus amigos, porém, interceptaram-nos e proibiram-nos de lhe contar, para que não a pranteasse em público. E, quando voltou à sua casa, que já ressoava com os lamentos da família, e lançou sobre o corpo da filha a veste que trazia, ela foi restituída à vida.
Ali também o filho de um homem, Irineu, um dos nossos cobradores de impostos, adoeceu e morreu. E, enquanto seu corpo jazia sem vida, e se preparavam os últimos ritos, em meio ao pranto e luto de todos, um dos amigos que consolavam o pai sugeriu que o corpo fosse ungido com o óleo do mesmo mártir. Assim se fez, e ele reviveu.
De igual modo, Eleusino, homem de posição tribunícia entre nós, deitou seu filhinho, que morrera, sobre o santuário do mártir, que fica no subúrbio onde ele vivia, e, após a oração, que ali derramou com muitas lágrimas, tomou o filho vivo.
Que hei de fazer? Estou tão premido pela promessa de concluir esta obra, que não posso registrar todos os milagres que conheço; e sem dúvida vários dos nossos adeptos, ao lerem o que narrei, lamentarão que eu tenha omitido tantos que eles, tanto quanto eu, certamente conhecem. Já agora rogo a essas pessoas que me desculpem e que considerem quanto tempo me tomaria relatar todos aqueles milagres, que a necessidade de concluir a obra que empreendi me força a omitir.
Pois, se eu silenciasse a respeito de todos os outros e registrasse exclusivamente os milagres de cura que se realizaram no distrito de Calama e de Hipona por meio deste mártir, refiro-me ao gloriosíssimo Estêvão, eles encheriam muitos volumes; e contudo nem todos estes poderiam ser reunidos, mas apenas aqueles dos quais se escreveram narrativas para leitura pública. Pois quando vi, em nossos próprios tempos, frequentes sinais da presença de poderes divinos, semelhantes aos que se haviam dado antigamente, desejei que se escrevessem narrativas, julgando que a multidão não deveria permanecer ignorante dessas coisas.
Ainda não faz dois anos que estas relíquias foram trazidas pela primeira vez a Hipona-Régia, e, embora muitos dos milagres que por elas se realizaram não tenham sido registrados, como tenho os mais certos meios de saber, aqueles que foram divulgados somam quase setenta na hora em que escrevo. Mas em Calama, onde estas relíquias estão há mais tempo, e onde mais dos milagres foram narrados para informação pública, há incomparavelmente mais.
Em Uzala também, colônia próxima de Útica, muitos milagres notáveis foram, ao que sei, realizados pelo mesmo mártir, cujas relíquias ali tinham encontrado lugar por determinação do bispo Evódio, muito antes de as termos em Hipona. Mas ali o costume de divulgar narrativas não vigora, ou melhor, devo dizer, não vigorava, pois é possível que agora já tenha começado.
Pois, quando ali estive recentemente, uma mulher de posição, Petrônia, fora miraculosamente curada de uma grave enfermidade de longa data, na qual todos os recursos da medicina haviam falhado, e, com o consentimento do já mencionado bispo do lugar, eu a exortei a publicar um relato disso, que pudesse ser lido ao povo. Ela obedeceu prontamente e inseriu em sua narrativa uma circunstância que não posso deixar de mencionar, embora seja compelido a apressar-me em direção aos assuntos que esta obra me exige tratar.
Ela disse que fora persuadida por um judeu a usar junto à pele, sob todas as suas vestes, um cinto de crina, e nesse cinto um anel que, em lugar de gema, tinha uma pedra que fora encontrada nos rins de um boi. Cingida com esse amuleto, dirigia-se ela ao limiar do santo mártir. Mas, depois de deixar Cartago, e quando se hospedava em sua própria propriedade junto ao rio Bagrada, e se levantava agora para prosseguir a viagem, viu seu anel jazendo diante de seus pés.
Em grande surpresa, examinou o cinto de crina e, quando o encontrou atado, como estivera, com nós bem firmes, conjecturou que o anel se tivesse gasto e desprendido; mas, quando verificou que o próprio anel estava também perfeitamente íntegro, presumiu que por este grande milagre houvesse de algum modo recebido um penhor de sua cura, pelo que desatou o cinto e o lançou ao rio, e o anel juntamente com ele.
Isto não é acreditado por aqueles que não creem nem que o Senhor Jesus Cristo saiu do ventre de sua mãe sem destruir sua virgindade, e entrou entre seus discípulos estando fechadas as portas; mas que façam estrita averiguação deste milagre e, se o acharem verdadeiro, creiam naqueles outros. A senhora é de distinção, nobremente nascida, casada com um nobre. Reside em Cartago. A cidade é ilustre, a pessoa é ilustre, de modo que aqueles que fazem averiguações não podem deixar de encontrar satisfação.
Certamente o próprio mártir, por cujas orações ela foi curada, creu no Filho daquela que permaneceu virgem; naquele que entrou entre os discípulos estando fechadas as portas; enfim, e a isto tende tudo o que temos relatado, naquele que subiu ao céu com a carne na qual ressuscitara; e foi porque deu a vida por esta fé que tais milagres se realizaram por seu intermédio.
Ainda agora, portanto, muitos milagres se realizam, o mesmo Deus que realizou aqueles que lemos ainda os fazendo, por quem ele quer e como quer; mas não são tão bem conhecidos, nem ficam gravados na memória, como o cascalho, pela leitura frequente, de modo que não possam cair no esquecimento. Pois, mesmo onde, como agora se faz entre nós, se tem o cuidado de que os opúsculos daqueles que recebem benefício sejam lidos publicamente, ainda assim os presentes ouvem a narrativa uma só vez, e muitos estão ausentes; e assim acontece que mesmo os presentes esquecem em poucos dias o que ouviram, e dificilmente se encontra um deles sequer que conte o que ouviu a alguém que sabe não ter estado presente.
Um milagre realizou-se entre nós que, embora não maior do que os que mencionei, foi contudo tão notável e conspícuo que suponho não haver habitante de Hipona que não o tenha visto ou ouvido, nenhum que pudesse possivelmente esquecê-lo. Havia sete irmãos e três irmãs de uma família nobre da Cesareia da Capadócia, que foram amaldiçoados por sua mãe, recém-enviuvada, por causa de algum mal que lhe haviam feito, e que ela amargamente ressentia, e que foram visitados com castigo tão severo do Céu, que todos eles foram acometidos de um tremor horrendo em todos os membros.
Incapazes, enquanto apresentavam esse aspecto repugnante, de suportar os olhares de seus concidadãos, vagaram por quase todo o mundo romano, cada um seguindo seu próprio rumo. Dois deles vieram a Hipona, um irmão e uma irmã, Paulo e Paládia, já conhecidos em muitos outros lugares pela fama de sua sorte miserável. Ora, faltavam cerca de quinze dias para a Páscoa quando chegaram, e vinham diariamente à igreja, e especialmente às relíquias do gloriosíssimo Estêvão, orando para que Deus se aplacasse agora e lhes restituísse a saúde de outrora. Ali, e por onde quer que fossem, atraíam a atenção de todos.
Alguns que os tinham visto alhures, e sabiam a causa de seu tremor, contavam-no a outros conforme a ocasião se oferecia. Chegou a Páscoa e, no dia do Senhor, pela manhã, quando havia agora grande multidão presente, e o jovem segurava as grades do lugar santo onde estavam as relíquias, e orava, subitamente caiu por terra e ficou exatamente como que adormecido, mas sem tremer, como costumava fazer mesmo no sono. Todos os presentes ficaram atônitos. Alguns se alarmaram, outros se comoveram de piedade; e enquanto alguns queriam levantá-lo, outros os impediram e disseram que deviam antes esperar e ver o que resultaria.
E eis que ele se ergueu, e não tremeu mais, pois estava curado, e ficou de pé, perfeitamente bem, fitando aqueles que o fitavam. Quem, então, se conteve de louvar a Deus? A igreja inteira encheu-se das vozes daqueles que clamavam e o congratulavam. Então vieram correndo a mim, onde eu estava sentado, pronto para entrar na igreja. Um após outro afluem em tropel, contando-me o que vinha depois como novidade aquilo que o primeiro já me havia contado; e, enquanto eu me alegrava e interiormente dava graças a Deus, o próprio jovem também entra, com vários outros, lança-se a meus joelhos, é erguido para receber o meu ósculo.
Entramos para a congregação: a igreja estava cheia e ressoava com os brados de júbilo: "Graças a Deus! Louvado seja Deus!", unindo-se todos e bradando por todos os lados: "Eu sarei o povo", e depois, com voz ainda mais alta, bradando de novo. Obtido por fim o silêncio, foram lidas as lições costumeiras das divinas Escrituras. E quando cheguei ao meu sermão, fiz algumas observações apropriadas à ocasião e ao sentimento feliz e jubiloso, não desejando que me escutassem a mim, mas antes que considerassem a eloquência de Deus nesta obra divina. O homem jantou conosco e nos deu um relato minucioso da calamidade dele, de sua mãe e de sua família.
Por conseguinte, no dia seguinte, depois de proferir meu sermão, prometi que no dia seguinte leria sua narrativa ao povo. E quando o fiz, no terceiro dia depois do Domingo de Páscoa, fiz o irmão e a irmã ficarem ambos de pé nos degraus do lugar elevado de onde eu costumava falar; e enquanto ali estavam, foi lido o seu opúsculo. A congregação inteira, homens e mulheres por igual, viu um de pé sem nenhum movimento anormal, a outra tremendo em todos os seus membros; de modo que aqueles que não tinham visto antes o próprio homem viram em sua irmã o que a divina compaixão dele removera.
Nele viam motivo de congratulação, nela motivo de oração. Enquanto isso, terminado o seu opúsculo, instruí-os a retirarem-se do olhar do povo; e eu havia começado a discutir todo o assunto com um pouco mais de cuidado, quando eis que, enquanto eu prosseguia, outras vozes se ouvem do túmulo do mártir, bradando novas congratulações. Meus ouvintes voltaram-se e começaram a correr ao túmulo.
A jovem, quando desceu dos degraus onde estivera de pé, foi orar junto às santas relíquias, e mal tocara as grades, ela, do mesmo modo que seu irmão, desfaleceu, como que adormecendo, e ergueu-se curada. Enquanto, então, perguntávamos o que havia acontecido, e o que ocasionava aquele ruído de júbilo, eles entraram na basílica onde estávamos, conduzindo-a do túmulo do mártir em perfeita saúde. Então, na verdade, ergueu-se tamanho brado de assombro de homens e mulheres juntos, que as exclamações e as lágrimas pareciam não ter mais fim. Ela foi conduzida ao lugar onde, pouco antes, estivera de pé tremendo.
Agora se regozijavam de que ela estivesse igual ao irmão, como antes haviam lamentado que permanecesse diferente dele; e, como ainda não haviam proferido suas orações em favor dela, perceberam que a sua intenção de o fazer fora prontamente atendida. Bradavam louvores a Deus sem palavras, mas com tamanho ruído que nossos ouvidos mal o podiam suportar. Que havia no coração desta gente exultante senão a fé de Cristo, pela qual Estêvão derramara o seu sangue?