A Cidade de Deus - Livro XXII 6
Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne
Que Roma fez de Rômulo, seu fundador, um deus porque o amava; mas a Igreja amou a Cristo porque cria que Ele era Deus
Recitemos aqui a passagem em que Túlio exprime seu espanto de que a apoteose de Rômulo tenha sido tida como crível. Inserirei suas palavras tal como estão: "O mais digno de nota em Rômulo é que outros homens, que se diz terem-se tornado deuses, viveram em épocas menos cultas, quando havia maior propensão ao fabuloso e quando os ignorantes facilmente se deixavam persuadir a crer em qualquer coisa.
Mas a época de Rômulo distava apenas uns seiscentos anos, e já a literatura e a ciência haviam dissipado os erros próprios de uma idade inculta." E pouco depois ele diz a respeito do mesmo Rômulo palavras com este sentido: "Daqui podemos perceber que Homero florescera muito antes de Rômulo, e que havia então tanto saber nos indivíduos, e tão geralmente difundida ilustração, que quase nenhum espaço restava para a fábula.
Pois a antiguidade admitia fábulas, e por vezes até muito grosseiras; mas esta época (a de Rômulo) era suficientemente esclarecida para rejeitar tudo o que não tivesse aparência de verdade." Assim, um dos homens mais doutos, e por certo o mais eloquente, Marco Túlio Cícero, diz ser surpreendente que se cresse na divindade de Rômulo, porque os tempos já eram tão esclarecidos que não aceitariam uma ficção fabulosa. Mas quem creu que Rômulo era um deus senão Roma, que era ela mesma pequena e em sua infância?
Depois, então, foi necessário que as gerações seguintes preservassem a tradição de seus antepassados; que, bebendo essa superstição com o leite materno, o Estado crescesse e chegasse a tal poder que pudesse ditar essa crença, como de um ponto de vantagem, a todas as nações sobre as quais se estendia o seu domínio. E essas nações, ainda que não cressem que Rômulo era um deus, ao menos o diziam, para não ofender o Estado soberano recusando dar ao seu fundador o título que lhe fora dado por Roma, a qual adotara essa crença não por amor ao erro, mas por um erro do amor.
Cristo, porém, embora seja o fundador da cidade celeste e eterna, não foi tido por Deus por ela porque por ele foi fundada, mas antes é por ele fundada em virtude de sua crença. Roma, depois de edificada e dedicada, adorou o seu fundador num templo como a um deus; mas esta Jerusalém pôs a Cristo, seu Deus, como seu fundamento, para que a edificação e a dedicação pudessem prosseguir. A primeira cidade amou o seu fundador, e por isso creu que ele era um deus; a segunda creu que Cristo era Deus, e por isso o amou.
Houve uma causa antecedente para o amor da primeira cidade, e para que ela cresse que até uma dignidade falsa pertencia ao objeto de seu amor; assim houve uma causa antecedente para a crença da segunda, e para que ela amasse a verdadeira dignidade que uma fé reta, e não uma suposição temerária, atribuía ao seu objeto. Pois, para não mencionar a multidão de milagres assombrosíssimos que provaram ser Cristo Deus, houve também profecias divinas que o anunciavam, profecias digníssimas de fé, as quais, já cumpridas, não nos obrigam, como aos pais, a esperar a sua verificação.
De Rômulo, por outro lado, e de como edificou Roma e nela reinou, lemos ou ouvimos a narrativa do que de fato sucedeu, não uma predição que de antemão dissesse que tais coisas haveriam de acontecer. E quanto à sua admissão entre os deuses, a história apenas registra que se creu nisso, e não o afirma como fato; pois nenhum sinal milagroso atestou a verdade disso. Pois, quanto àquela loba que se diz ter amamentado os irmãos gêmeos, e que se tem por grande prodígio, como prova isto que ele fosse divino?
Pois, mesmo supondo que essa ama fosse uma loba real e não uma mera cortesã, ainda assim ela amamentou ambos os irmãos, e Remo não é contado como deus. Além disso, o que impediria alguém de afirmar que Rômulo, ou Hércules, ou qualquer homem tal, fosse um deus? Ou quem preferiria morrer a professar crença na sua divindade? E acaso uma só nação adorou Rômulo entre os seus deuses, a não ser forçada pelo temor do nome romano? Mas quem pode contar as multidões que escolheram a morte sob as formas mais cruéis antes que negar a divindade de Cristo?
E assim o receio de alguma leve indignação, que se supunha, talvez sem fundamento, poder existir nas mentes dos romanos, constrangeu alguns Estados sujeitos a Roma a adorar Rômulo como deus; ao passo que o receio, não de um leve abalo mental, mas de castigos severos e variados, e da própria morte, a mais temível de todas as coisas, não pôde impedir que uma imensa multidão de mártires por todo o mundo não só adorasse, mas também confessasse a Cristo como Deus.
A cidade de Cristo, que, embora ainda peregrina sobre a terra, tinha hostes incontáveis de cidadãos, não fez guerra aos seus perseguidores ímpios em prol da segurança temporal, mas preferiu alcançar a salvação eterna abstendo-se da guerra. Eles foram atados, encarcerados, espancados, torturados, queimados, despedaçados, massacrados, e contudo se multiplicavam. Não lhes era dado lutar pela sua salvação eterna senão desprezando a sua salvação temporal por amor ao seu Salvador.
Estou ciente de que Cícero, no terceiro livro de sua De Republica, se não me engano, argumenta que uma potência de primeira ordem não empreenderá guerra senão pela honra ou pela segurança. O que ele tem a dizer sobre a questão da segurança, e o que entende por segurança, ele explica em outro lugar, dizendo: "Os particulares frequentemente escapam, por uma morte rápida, à indigência, ao exílio, às cadeias, ao açoite e às demais dores que até os mais insensíveis sentem. Mas para os Estados, a morte, que parece libertar os indivíduos de todos os castigos, é ela mesma um castigo; pois um Estado deve ser constituído de modo a ser eterno.
E assim a morte não é natural a uma república como o é a um homem, para quem a morte não só é necessária, mas amiúde até desejável. Mas quando um Estado é destruído, obliterado, aniquilado, é como se (para comparar coisas grandes com pequenas) este mundo inteiro perecesse e ruísse." Cícero disse isto porque ele, com os platônicos, cria que o mundo não pereceria.
Está, portanto, assente que, segundo Cícero, um Estado deve empreender guerra pela segurança que o conserva permanentemente em existência, ainda que os seus cidadãos mudem; assim como a folhagem de uma oliveira ou de um loureiro, ou de qualquer árvore deste gênero, é perene, sendo as folhas velhas substituídas por novas. Pois a morte, como ele diz, não é castigo para os indivíduos, mas antes os livra de todos os outros castigos, ao passo que é um castigo para o Estado.
E por isso razoavelmente se pergunta se os saguntinos agiram bem quando escolheram que todo o seu Estado perecesse antes que quebrassem a fé com a república romana; pois esse feito deles é aplaudido pelos cidadãos da república terrena. Mas não vejo como puderam seguir o conselho de Cícero, que nos diz que nenhuma guerra deve ser empreendida senão pela segurança ou pela honra; nem ele diz qual destas duas se deve preferir, caso ocorresse um caso em que uma não pudesse ser preservada sem a perda da outra.
Pois manifestamente, se os saguntinos escolhessem a segurança, teriam de quebrar a fé; se guardassem a fé, teriam de rejeitar a segurança; como de fato sucedeu. Mas a segurança da cidade de Deus é tal que pode ser conservada, ou antes adquirida, pela fé e com a fé; mas, se a fé for abandonada, ninguém pode alcançá-la. É este pensamento de um espírito firmíssimo e paciente que fez tantos nobres mártires, ao passo que Rômulo não teve, nem podia ter, sequer um só que morresse pela sua divindade.