A Cidade de Deus - Livro XXII 5

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

Da ressurreição da carne, em que alguns se recusam a crer, embora o mundo em geral nela creia

Mas, ainda que isto outrora fosse incrível, eis que agora o mundo veio a crer que o corpo terreno de Cristo foi recebido no céu. tanto os doutos quanto os indoutos creram na ressurreição da carne e na sua ascensão às regiões celestes, enquanto apenas muito poucos, fossem instruídos ou não, ainda se mostram desconcertados diante disso. Se é coisa crível aquilo em que se crê, vejam então quão estúpidos são os que não creem; e, se é incrível, então também isto é coisa incrível: que aquilo que é incrível tenha recebido tamanho crédito.
Temos aqui, pois, dois fatos incríveis, a saber, a ressurreição do nosso corpo para a eternidade, e que o mundo creia em coisa tão incrível; e ambos estes fatos incríveis o mesmo Deus predisse que haveriam de acontecer antes que qualquer um deles tivesse ainda ocorrido. Vemos que um dos dois se cumpriu, pois o mundo creu naquilo que era incrível; por que haveríamos de desesperar de que o restante também se cumpra, e de que isto em que o mundo creu, embora fosse incrível, ele próprio venha a ocorrer? Pois aquilo que era igualmente incrível se cumpriu, ao crer o mundo em coisa incrível.
Ambos eram incríveis: a um vemos cumprido, no outro cremos que de ser; pois ambos foram preditos naquelas mesmas Escrituras por meio das quais o mundo creu. E o próprio modo pelo qual a do mundo foi conquistada mostra-se ainda mais incrível, se o considerarmos.
Homens não instruídos em nenhum ramo da educação liberal, sem nenhum dos refinamentos do saber pagão, ignorantes da gramática, não armados de dialética, não ornados de retórica, mas simples pescadores, e muito poucos em número: estes foram os homens que Cristo enviou com as redes da ao mar deste mundo, e assim retirou de toda raça tantos peixes, e até os próprios filósofos, tão admiráveis quanto raros. Acrescentemos, se vos apraz, ou porque deveis comprazer-vos, esta terceira coisa incrível às duas anteriores. E agora temos três coisas incríveis, todas as quais, contudo, se cumpriram.
É incrível que Jesus Cristo tenha ressuscitado na carne e ascendido com a carne ao céu; é incrível que o mundo tenha crido em coisa tão incrível; é incrível que muito poucos homens, de origem humilde e da mais baixa condição, e sem educação alguma, tenham sido capazes de persuadir tão eficazmente o mundo, e até os seus homens doutos, de coisa tão incrível. Destas três coisas incríveis, aqueles com quem debatemos recusam-se a crer na primeira; não podem recusar-se a ver a segunda, a qual não conseguem explicar se não creem na terceira.
É indubitável que a ressurreição de Cristo, e a sua ascensão ao céu com a carne em que ressuscitou, é pregada e crida no mundo inteiro. Se não é crível, como é que recebeu crédito no mundo inteiro?
Se um certo número de homens nobres, elevados e doutos tivessem dito que o haviam testemunhado, e se houvessem empenhado em divulgar aquilo que testemunharam, não seria de admirar que o mundo nisso cresse, mas seria muito obstinado recusar tal crédito; mas se, como é verdade, o mundo creu em uns poucos homens obscuros, insignificantes e sem educação, que afirmam e escrevem que o testemunharam, não será desarrazoado que um punhado de homens de cabeça transviada se oponha à do mundo inteiro e recuse a sua crença?
E se o mundo depositou num pequeno número de homens, de origem humilde e da mais baixa condição, e sem educação alguma, é porque a divindade da própria coisa apareceu tanto mais manifestamente em testemunhas tão desprezíveis. Com efeito, a eloquência que conferiu poder de persuasão à sua mensagem consistiu em obras admiráveis, não em palavras. Pois aqueles que não tinham visto Cristo ressuscitado na carne, nem ascendendo ao céu com o seu corpo ressuscitado, creram nos que relatavam como haviam visto estas coisas, e que davam testemunho não apenas com palavras, mas com sinais admiráveis.
Pois homens que sabiam conhecer apenas uma, ou quando muito duas línguas, maravilharam-se de ouvir falando nas línguas de todas as nações.
Viram um homem, coxo desde o ventre de sua mãe, depois de quarenta anos levantar-se são à sua palavra, em nome de Cristo; viram que lenços tirados dos seus corpos tinham a virtude de curar os enfermos; que incontáveis pessoas, padecendo de várias doenças, eram postas em fileira no caminho por onde haviam de passar, para que a sua sombra caísse sobre elas ao caminharem, e que no mesmo instante recebiam a saúde; que muitos outros estupendos milagres eram por eles operados em nome de Cristo; e, por fim, que até ressuscitavam os mortos.
Se se admite que estas coisas ocorreram tal como são relatadas, então temos uma multidão de coisas incríveis a acrescentar àquelas três incríveis. Para que a única incredibilidade da ressurreição e ascensão de Jesus Cristo possa ser crida, acumulamos os testemunhos de incontáveis milagres incríveis, mas, ainda assim, não dobramos a terrível obstinação destes céticos. Mas, se não creem que estes milagres foram operados pelos apóstolos de Cristo para dar crédito à sua pregação da ressurreição e ascensão dele, basta-nos este único e grandioso milagre: que o mundo inteiro creu sem nenhum milagre.