A Cidade de Deus - Livro XXII 28

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

O que Platão, Labeão ou mesmo Varrão poderiam ter contribuído para a verdadeira fé na ressurreição, se tivessem reunido num só esquema as opiniões uns dos outros.

Alguns cristãos, que apreciam Platão por causa de seu estilo magnífico e das verdades que ele de quando em quando proferiu, dizem que ele chegou mesmo a sustentar uma opinião semelhante à nossa a respeito da ressurreição dos mortos. Cícero, contudo, aludindo a isto em sua República, afirma que Platão a propôs antes como um divertimento da imaginação do que como uma realidade; pois ele introduz um homem que tornara a viver e que apresentou um relato de sua experiência em confirmação das doutrinas de Platão.
Labeão, também, diz que dois homens morreram num mesmo dia, e se encontraram numa encruzilhada, e que, sendo depois ordenados a voltar para os seus corpos, combinaram ser amigos por toda a vida, e assim o foram até que morreram novamente. Mas a ressurreição que estes escritores apresentam como exemplo assemelha-se à daquelas pessoas que nós mesmos conhecemos ter ressuscitado, e que de fato voltaram a esta vida, mas não de modo que jamais tornassem a morrer. Marco Varrão, porém, em sua obra Sobre a Origem do Povo Romano, registra algo mais notável; penso que se devem dar as suas próprias palavras.
"Certos astrólogos", diz ele, "escreveram que os homens estão destinados a um novo nascimento, que os gregos chamam de palingenesia. Isto se dará depois de transcorridos quatrocentos e quarenta anos; e então a mesma alma e o mesmo corpo, que antes estiveram unidos na pessoa, hão de novamente se reunir." Este Varrão, na verdade, ou aqueles astrólogos sem nome (pois ele não nos os nomes dos homens cuja afirmação cita) sustentaram algo que de fato não é inteiramente verdadeiro; pois, uma vez que as almas tenham retornado aos corpos que vestiram, jamais depois os deixarão.
Contudo, o que eles dizem perturba e demole muito daquela conversa de nossos adversários acerca da impossibilidade da ressurreição. Pois aqueles que foram ou são desta opinião não julgaram possível que corpos que se dissolveram em ar, ou pó, ou cinzas, ou água, ou nos corpos das feras, ou mesmo dos homens que deles se alimentaram, pudessem ser restaurados novamente àquilo que antes eram.
E portanto, se Platão e Porfírio, ou antes, se os seus discípulos que hoje vivem, concordam conosco em que as almas santas hão de retornar ao corpo, como diz Platão, e em que, todavia, não hão de retornar à miséria, como sustenta Porfírio (se aceitarem a consequência destas duas proposições que é ensinada pela cristã, isto é, que receberão corpos nos quais possam viver eternamente sem padecer miséria alguma), que adotem também de Varrão a opinião de que retornarão aos mesmos corpos em que antes estiveram, e assim toda a questão da ressurreição eterna do corpo ficará resolvida pela sua própria boca.