A Cidade de Deus - Livro XXII 26

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

Que a opinião de Porfírio, segundo a qual a alma, para ser bem-aventurada, deve separar-se de todo tipo de corpo, é refutada por Platão, que diz que o Deus supremo prometeu aos deuses que jamais seriam despojados de seus corpos

Mas, dizem eles, Porfírio nos ensina que a alma, para ser bem-aventurada, deve escapar à ligação com todo tipo de corpo. De nada serve, portanto, dizer que o corpo futuro será incorruptível, se a alma não pode ser bem-aventurada antes de estar livre de todo tipo de corpo. Mas, no livro acima mencionado, discuti suficientemente este ponto.
Esta única coisa apenas repetirei: que Platão, mestre deles, corrija seus escritos e diga que os seus deuses, para serem bem-aventurados, devem deixar os seus corpos, ou, por outras palavras, morrer; pois ele disse que esses deuses estavam encerrados em corpos celestes e que, não obstante, o Deus que os fez lhes prometeu a imortalidade, isto é, a posse eterna desses mesmos corpos, posse que não lhes era assegurada por natureza, mas tão somente pela intervenção ulterior da sua vontade, para que assim fossem garantidos da felicidade.
Nisto ele evidentemente derruba a afirmação deles de que a ressurreição do corpo não pode ser crida porque é impossível; pois, segundo ele, quando o Deus incriado prometeu a imortalidade aos deuses criados, declarou expressamente que faria aquilo que era impossível.
Pois Platão nos relata que Ele disse: "Assim como tivestes um princípio, não podeis ser imortais e incorruptíveis; contudo não vos haveis de corromper, nem destino algum vos destruirá ou prevalecerá sobre a minha vontade, a qual vos prende à imortalidade com mais eficácia do que o vínculo da vossa natureza vos afasta dela." Se aqueles que ouvem estas palavras têm, não digamos entendimento, mas ao menos ouvidos, não podem duvidar de que Platão acreditava que Deus prometeu aos deuses que havia feito que realizaria uma impossibilidade.
Pois Aquele que diz: "Não podeis ser imortais, mas pela minha vontade sereis imortais", que outra coisa diz senão isto: "Far-vos-ei aquilo que não podeis ser"? O corpo, portanto, será ressuscitado incorruptível, imortal, espiritual, por Aquele que, segundo Platão, prometeu fazer o que é impossível. Por que, então, ainda clamam que isto que Deus prometeu, e que o mundo creu pela promessa de Deus, conforme foi predito, é uma impossibilidade? Pois o que dizemos é que o Deus que, mesmo segundo Platão, faz coisas impossíveis, fará isto.
Não é, pois, necessário à bem-aventurança da alma que ela seja desligada de um corpo de qualquer espécie, mas que receba um corpo incorruptível. E em que corpo incorruptível mais convenientemente se alegrarão do que naquele em que gemeram quando era corruptível? Pois assim não sentirão aquele terrível anseio que Virgílio, imitando Platão, lhes atribuiu quando diz que desejam voltar novamente aos seus corpos.
Não sentirão, repito, este desejo de voltar aos seus corpos, visto que possuirão aqueles corpos aos quais se desejava regressar, e os possuirão, na verdade, de modo tão pleno e completo, que jamais os perderão, nem mesmo por um instante brevíssimo, nem jamais os deporão na morte.