A Cidade de Deus - Livro XXII 25

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

Da obstinação daqueles que impugnam a ressurreição do corpo, embora, como foi predito, o mundo inteiro nela creia

Os maiores dos filósofos concordam conosco quanto à felicidade espiritual de que gozarão os bem-aventurados na vida futura; é apenas a ressurreição da carne que põem em questão e que, com todas as suas forças, negam. Mas a multidão dos homens, doutos e indoutos, os sábios deste mundo e os seus tolos, creram, e deixaram os incrédulos numa escassa solidão, e voltaram-se para Cristo, que, em sua própria ressurreição, demonstrou a realidade daquilo que aos nossos adversários parece absurdo.
Pois o mundo creu naquilo que Deus predisse, assim como também foi predito que o mundo haveria de crer: predição que não se deve às feitiçarias de Pedro, visto que foi proferida tanto tempo antes. Aquele que predisse estas coisas, como disse e não me envergonho de repetir, é o Deus diante de quem tremem todas as outras divindades, como o próprio Porfírio reconhece e procura provar mediante testemunhos dos oráculos desses deuses, chegando ao ponto de chamá-lo Deus Pai e Rei.
Longe esteja de nós interpretar estas predições como o fazem aqueles que não creram, juntamente com o mundo inteiro, naquilo em que foi predito que o mundo haveria de crer. Pois por que não as entenderíamos antes como o mundo as entende, cuja foi predita, deixando aquele punhado de incrédulos à sua conversa e à sua infidelidade obstinada e solitária?
Pois, se eles sustentam que as interpretam de modo diverso apenas para não acusar a Escritura de loucura, e assim não fazer injúria àquele Deus de quem dão tão notável testemunho, não é injúria muito maior a que lhe fazem quando dizem que as suas predições devem ser entendidas de outro modo que não aquele em que o mundo as creu, embora ele próprio tenha louvado, prometido e realizado essa crença da parte do mundo? E por que não poderia ele fazer com que o corpo ressurgisse e vivesse para sempre? Ou não se de crer que ele fará isto, por ser coisa indesejável e indigna de Deus?
Acerca da sua onipotência, que opera tantos e tão grandes milagres, dissemos o bastante. Se quiserem saber o que o Todo-Poderoso não pode fazer, eu lhes direi: ele não pode mentir. Creiamos, pois, naquilo que ele pode fazer, recusando crer naquilo que ele não pode fazer. Recusando crer que ele possa mentir, creiam que ele fará o que prometeu fazer; e creiam-no assim como o mundo o creu, cuja ele predisse, cuja ele louvou, cuja ele prometeu, cuja ele agora aponta. Mas como provam eles que a ressurreição é coisa indesejável?
Não haverá então corrupção alguma, que é a única coisa a respeito do corpo. disse o bastante sobre a ordem dos elementos e as outras objeções fantasiosas que os homens levantam; e, no décimo terceiro livro, ilustrei, a meu juízo, suficientemente a facilidade de movimento de que gozará o corpo incorruptível, a julgar pela leveza e pelo vigor que experimentamos ainda agora, quando o corpo está em boa saúde. Aqueles que ou não leram os livros anteriores, ou desejam refrescar a memória, podem lê-los por si mesmos.