A Cidade de Deus - Livro XXII 23

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

Das misérias desta vida que pertencem peculiarmente ao esforço dos homens bons, à parte daquelas comuns aos bons e aos maus

Mas, à parte das misérias que nesta vida são comuns aos bons e aos maus, os justos suportam fadigas que lhes são peculiares, na medida em que fazem guerra contra os seus vícios e se veem envolvidos nas tentações e nos perigos de tal combate.
Pois, embora ora mais violenta, ora mais branda, todavia sem intermissão a carne cobiça contra o espírito e o espírito contra a carne, de modo que não podemos fazer as coisas que queremos nem extirpar toda a concupiscência, mas podemos recusar-lhe o consentimento, conforme Deus nos a capacidade, e assim mantê-la sob domínio, velando vigilantes para que uma aparência de verdade não nos engane, para que um discurso sutil não nos cegue, para que o erro não nos envolva em trevas, para que não tomemos o bem por mal ou o mal por bem, para que o temor não nos impeça de fazer o que devemos, ou o desejo não nos precipite a fazer o que não devemos, para que o sol não se ponha sobre a nossa ira, para que o ódio não nos provoque a retribuir mal por mal, para que uma tristeza indecorosa ou imoderada não nos consuma, para que uma disposição ingrata não nos torne lentos em reconhecer os benefícios recebidos, para que as calúnias não atormentem a nossa consciência, para que uma suspeita temerária da nossa parte não nos engane acerca de um amigo, ou uma falsa suspeita a nosso respeito da parte de outros não nos cause demasiada inquietação, para que o pecado não reine em nosso corpo mortal de modo a obedecermos aos seus desejos, para que os nossos membros não sejam usados como instrumentos de iniquidade, para que o olho não siga a concupiscência, para que a sede de vingança não nos arraste, para que a vista ou o pensamento não se demore por demais em alguma coisa que nos prazer, para que linguagem perversa ou indecente não seja de bom grado escutada, para que não façamos o que é agradável, mas ilícito, e para que, nesta guerra tão abundantemente cheia de fadiga e perigo, não esperemos assegurar a vitória pelas nossas próprias forças, nem, uma vez assegurada, a atribuamos às nossas próprias forças, e não à graça daquele de quem o apóstolo diz: "Graças a Deus, que nos a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo"; e em outro lugar diz: "Em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou." Mas, ainda assim, devemos saber isto: que, por mais valentemente que resistamos aos nossos vícios e por mais bem-sucedidos que sejamos em vencê-los, todavia, enquanto estivermos neste corpo, teremos sempre razão para dizer a Deus: "Perdoai-nos as nossas dívidas." Mas naquele reino onde habitaremos para sempre, revestidos de corpos imortais, não teremos mais nem conflitos nem dívidas, como, na verdade, não os teríamos tido em tempo algum nem em condição alguma, se a nossa natureza tivesse permanecido reta tal como foi criada.
Por conseguinte, até mesmo este nosso conflito, no qual estamos expostos ao perigo e do qual esperamos ser libertados por uma vitória final, pertence aos males desta vida, que se prova, pelo testemunho de tantos e tão graves males, ser uma vida sob condenação.