A Cidade de Deus - Livro XXII 22

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

Das misérias e males a que o gênero humano está justamente exposto pelo primeiro pecado, e dos quais ninguém pode ser libertado senão pela graça de Cristo

Que todo o gênero humano foi condenado em sua origem primeira, disto testemunho esta própria vida, se é que se de chamá-la vida, pela multidão de males cruéis de que está repleta. Não fica isso provado pela ignorância profunda e terrível que produz todos os erros que envolvem os filhos de Adão, e da qual nenhum homem se pode libertar sem trabalho, dor e temor?
Não fica isso provado por seu amor a tantas coisas vãs e nocivas, que produz cuidados que corroem, inquietação, tristezas, temores, alegrias desenfreadas, querelas, pleitos, guerras, traições, iras, ódios, engano, lisonja, fraude, furto, roubo, perfídia, soberba, ambição, inveja, homicídios, parricídios, crueldade, ferocidade, malícia, luxúria, insolência, impudência, despudor, fornicações, adultérios, incestos e as inúmeras impurezas e atos contra a natureza de ambos os sexos, que é vergonhoso sequer mencionar; sacrilégios, heresias, blasfêmias, perjúrios, opressão dos inocentes, calúnias, conspirações, falsidades, falsos testemunhos, juízos injustos, atos de violência, pilhagens e toda iniquidade semelhante que se introduziu na vida dos homens, ainda que não possa introduzir-se na concepção das mentes puras?
Estes são, de fato, os crimes dos homens ímpios, contudo brotam daquela raiz de erro e de amor desviado que nasce com todo filho de Adão. Pois quem que não tenha observado com que profunda ignorância, manifestando-se na infância, e com que excesso de desejos insensatos, começando a aparecer na meninice, vem o homem a esta vida, de modo que, se fosse deixado a viver como lhe aprouvesse e a fazer tudo o que quisesse, se precipitaria em todos, ou certamente em muitos daqueles crimes e iniquidades que mencionei, e que não poderia mencionar?
Mas porque Deus não abandona inteiramente aqueles que condena, nem encerra em sua ira as suas ternas misericórdias, o gênero humano é refreado pela lei e pela instrução, que montam guarda contra a ignorância que nos cerca e se opõem aos assaltos do vício, mas que são elas mesmas cheias de labor e de tristeza. Pois que significam aquelas ameaças multiformes que se empregam para refrear a insensatez das crianças? Que significam os pedagogos, os mestres, a vara, a correia, a férula, a disciplina que a Escritura diz dever ser dada a um menino, batendo-lhe nos flancos para que não se torne obstinado, e mal seja possível, ou de todo impossível, subjugá-lo?
Por que todos esses castigos, senão para vencer a ignorância e refrear os maus desejos, esses males com que viemos ao mundo? Pois por que é que com dificuldade recordamos e sem dificuldade esquecemos? com dificuldade aprendemos e sem dificuldade permanecemos ignorantes? com dificuldade somos diligentes e sem dificuldade somos indolentes? Não mostra isto para onde inclina e para onde tende, por seu próprio peso, a natureza viciada, e de que socorro necessita, se de ser libertada? A inatividade, a indolência, a preguiça, a negligência são vícios que fogem ao labor, pois o labor, ainda que útil, é ele mesmo um castigo.
Mas, além dos castigos da infância, sem os quais não haveria aprendizado daquilo que os pais desejam (e raramente desejam os pais que se ensine algo de útil), quem poderá descrever, quem poderá conceber o número e a severidade dos castigos que afligem o gênero humano, dores que não são apenas o acompanhamento da maldade dos homens ímpios, mas que são parte da condição humana e da miséria comum, que temor e que dor são causados pela perda dos entes queridos e pelo luto, pelas perdas e condenações, pela fraude e pela falsidade, pelas falsas suspeitas e por todos os crimes e atos perversos dos outros homens?
Pois às suas mãos sofremos roubo, cativeiro, cadeias, prisão, exílio, tortura, mutilação, perda da vista, a violação da castidade para saciar a luxúria do opressor, e muitos outros males terríveis.
Quantas inúmeras desgraças ameaçam nossos corpos por fora: os extremos de calor e de frio, tempestades, cheias, inundações, raios, trovões, granizo, terremotos, casas que desabam; ou o tropeço, o espanto ou o vício dos cavalos; os incontáveis venenos nos frutos, na água, no ar, nos animais; as mordidas dolorosas ou mesmo mortais das feras; a loucura que um cão raivoso transmite, de modo que até o animal que, entre todos os outros, é o mais manso e amigo de seu próprio dono se torna objeto de temor mais intenso do que um leão ou um dragão, e o homem que por acaso ele infectou com esse contágio pestilento se torna de tal modo raivoso que seus pais, sua esposa, seus filhos o temem mais do que a qualquer fera!
Que desastres sofrem os que viajam por terra ou por mar! Que homem pode sair de sua própria casa sem ficar exposto por toda parte a acidentes imprevistos? Voltando para casa são dos membros, escorrega na própria soleira da porta, quebra a perna e nunca mais se recupera. Que pode parecer mais seguro do que um homem sentado em sua cadeira? Eli, o sacerdote, caiu da sua e quebrou o pescoço. Quantos acidentes temem os agricultores, ou antes, todos os homens, que as colheitas sofram por causa do clima, ou do solo, ou dos estragos dos animais destruidores? Comumente sentem-se seguros quando as colheitas estão recolhidas e guardadas.
Contudo, é de meu conhecimento certo que cheias súbitas afugentaram os trabalhadores e varreram os celeiros da mais bela colheita. Será a inocência proteção suficiente contra os vários assaltos dos demônios? Para que ninguém o pensasse, até mesmo crianças batizadas, que certamente não são superadas em inocência, são por vezes de tal modo atormentadas que Deus, que o permite, nos ensina com isto a deplorar as calamidades desta vida e a desejar a felicidade da vida vindoura. Quanto às doenças do corpo, são tão numerosas que não podem todas ser contidas nem mesmo nos livros de medicina.
E em muitíssimas delas, ou quase em todas, as curas e os remédios são eles mesmos torturas, de modo que os homens são libertados de uma dor que destrói por uma cura que dói. Não terá a loucura da sede levado os homens a beber a urina humana, e até a sua própria? Não terá a fome levado os homens a comer carne humana, e isto não a carne de corpos achados mortos, mas de corpos mortos para esse fim? Não terão as pungentes dores da fome levado mães a comer os próprios filhos, por mais incrivelmente selvagem que pareça?
Por fim, o próprio sono, que com justiça se chama repouso, quão pouco de repouso por vezes nele há, quando perturbado por sonhos e visões; e com que terror é a mente desventurada subjugada pelas aparências das coisas que assim se apresentam e que, por assim dizer, de tal modo se destacam diante dos sentidos que não as podemos distinguir das realidades! Quão miseravelmente as falsas aparências perturbam os homens em certas doenças!
Com que espantosa variedade de aparências são por vezes enganados até mesmo os homens sãos pelos espíritos malignos, que produzem essas ilusões a fim de confundir os sentidos de suas vítimas, se não conseguem seduzi-las para o seu lado!
Deste inferno sobre a terra não escapatória, senão pela graça do Salvador Cristo, nosso Deus e Senhor. O próprio nome Jesus o mostra, pois significa Salvador; e Ele nos salva sobretudo de passar desta vida a um estado mais desventurado e eterno, que é antes uma morte do que uma vida. Pois nesta vida, embora os homens santos e os santos labores nos ofereçam grandes consolações, contudo as bênçãos que os homens anseiam nem sempre lhes são concedidas, para que a religião não seja cultivada por causa dessas vantagens temporais, ao passo que deve antes ser cultivada por causa daquela outra vida da qual todo mal está excluído.
Portanto, também, a graça auxilia os homens bons em meio às calamidades presentes, de modo que lhes é dado suportá-las com uma constância proporcionada à sua fé. Os sábios deste mundo afirmam que a filosofia contribui em algo para isto, aquela filosofia que, segundo Cícero, os deuses concederam em sua pureza apenas a poucos homens. Nunca deram, diz ele, nem jamais poderão dar, dádiva maior aos homens. De modo que até mesmo aqueles contra quem disputamos foram compelidos a reconhecer, de algum modo, que a graça de Deus é necessária para a aquisição, não, na verdade, de qualquer filosofia, mas da verdadeira filosofia.
E se a verdadeira filosofia, este único amparo contra as misérias desta vida, foi dada pelo Céu apenas a poucos, fica disto suficientemente claro que o gênero humano foi condenado a pagar esta pena de desventura. E como, segundo o seu próprio reconhecimento, nenhuma dádiva maior foi concedida por Deus, assim se deve crer que ela poderia ser dada por aquele Deus que eles mesmos reconhecem ser maior do que todos os deuses que adoram.