A Cidade de Deus - Livro XXII 20
Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne
Que, na ressurreição, a substância de nossos corpos, por mais desagregada que esteja, será inteiramente reunida.
Longe de nós o temor de que a onipotência do Criador não possa, para a ressuscitação e a reanimação de nossos corpos, reaver todas as porções que foram consumidas por feras ou pelo fogo, ou que se dissolveram em pó ou em cinzas, ou que se decompuseram em água, ou que se evaporaram no ar. Longe de nós o pensamento de que qualquer coisa que escape à nossa observação no mais oculto recesso da natureza ou iluda o conhecimento ou ultrapasse o poder do Criador de todas as coisas.
Cícero, a grande autoridade de nossos adversários, querendo definir Deus com a maior exatidão possível, diz: "Deus é uma mente livre e independente, sem materialidade, que percebe e move todas as coisas, e ela mesma dotada de movimento eterno." Isto ele encontrou nos sistemas dos maiores filósofos. Permiti-me perguntar, então, em sua própria linguagem: como pode algo ou ficar escondido daquele que percebe todas as coisas, ou escapar irrevogavelmente daquele que move todas as coisas?
Isto me leva a responder àquela questão que parece a mais difícil de todas: a quem, na ressurreição, pertencerá a carne de um homem morto que se tornou a carne de um homem vivo?
Pois se alguém, faminto por necessidade e premido pela fome, usar carne humana como alimento (extremidade não desconhecida, como tanto a história antiga quanto a infeliz experiência de nossos próprios dias nos ensinaram), poder-se-á sustentar, com alguma aparência de razão, que toda a carne comida foi evacuada e que nenhuma parte dela se assimilou à substância de quem a comeu, embora a própria magreza que antes existia, e agora desapareceu, indique suficientemente que grandes deficiências foram preenchidas com esse alimento? Mas já fiz algumas observações que bastarão também para a solução desta dificuldade.
Pois toda a carne que a fome consumiu acha seu caminho para o ar por evaporação, donde, como dissemos, Deus Todo-Poderoso pode reavê-la. Aquela carne, portanto, será restituída ao homem em quem primeiro se tornou carne humana. Pois deve ser considerada como tomada de empréstimo pela outra pessoa e, como um empréstimo pecuniário, deve ser devolvida ao credor. A sua própria carne, porém, que ele perdeu pela fome, ser-lhe-á restituída por Aquele que pode recuperar até mesmo o que se evaporou. E ainda que tivesse sido absolutamente aniquilada, de modo que nenhuma parte de sua substância permanecesse em qualquer lugar secreto da natureza, o Todo-Poderoso poderia restaurá-la pelos meios que julgasse convenientes.
Pois esta sentença, proferida pela Verdade, "Nem um cabelo da vossa cabeça perecerá", proíbe-nos de supor que, embora nenhum cabelo da cabeça de um homem possa perecer, as grandes porções de sua carne comidas e consumidas pelos famintos possam, contudo, perecer.
De tudo o que assim consideramos, e discutimos com a pobre habilidade de que dispomos, recolhemos esta conclusão: que, na ressurreição da carne, o corpo será daquele tamanho que ou tinha alcançado ou deveria ter alcançado na flor da juventude, e gozará da beleza que provém de preservar a simetria e a proporção em todos os seus membros.
E é razoável supor que, para a preservação desta beleza, qualquer parte da substância do corpo que, se colocada num só lugar, produziria uma deformidade, será distribuída por todo ele, de modo que nem qualquer parte, nem a simetria do conjunto, se perca, mas apenas a estatura geral do corpo seja de algum modo aumentada pela distribuição, em todas as partes, daquilo que, num só lugar, teria sido disforme.
Ou, se se sustentar que cada um ressuscitará com a mesma estatura que tinha o corpo em que morreu, não disputaremos isto obstinadamente, contanto apenas que não haja deformidade, nem enfermidade, nem debilidade, nem corrupção, nada de espécie alguma que mal conviria àquele reino em que os filhos da ressurreição e da promessa serão iguais aos anjos de Deus, se não no corpo e na idade, ao menos na felicidade.