A Cidade de Deus - Livro XXII 19

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

Que todos os defeitos corporais que afeiam a beleza humana nesta vida serão removidos na ressurreição, permanecendo a substância natural do corpo, mas alterando-se a sua qualidade e quantidade de modo a produzir beleza

Que direi agora a respeito dos cabelos e das unhas? Uma vez que se compreenda que nenhuma parte do corpo de perecer de modo a produzir deformidade no corpo, compreende-se ao mesmo tempo que aquelas coisas que produziriam deformidade por suas proporções excessivas serão acrescentadas à massa total do corpo, e não às partes nas quais a beleza da proporção seria assim prejudicada.
Assim como, depois de feito um vaso de barro, se alguém quisesse refazê-lo do mesmo barro, não seria necessário que a mesma porção de barro que formara a asa formasse novamente a nova asa, ou que aquilo que formara o fundo o fizesse outra vez, mas apenas que todo o barro fosse empregado na composição de todo o novo vaso, e que nenhuma parte dele ficasse sem uso.
Portanto, se os cabelos que foram cortados e as unhas que foram aparadas causassem deformidade, caso fossem restituídos aos seus lugares, não serão restituídos; e contudo ninguém perderá essas partes na ressurreição, pois elas serão transformadas na mesma carne, sendo a sua substância de tal modo alterada que se preserve a proporção das diversas partes do corpo.
Contudo, o que nosso Senhor disse, "Nem um cabelo de vossa cabeça perecerá", poderia interpretar-se mais convenientemente do número, e não do comprimento dos cabelos, como Ele diz em outro lugar: "Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados". E não diria eu isto por supor que alguma parte naturalmente pertencente ao corpo possa perecer, mas que qualquer deformidade que nele houvesse, e que servia para exibir a condição penal em que nós, mortais, nos encontramos, fosse restaurada de tal modo que, conservando-se inteiramente a substância, a deformidade perecesse.
Pois se até um artífice humano, que por alguma razão fez uma estátua disforme, pode refundi-la e torná-la belíssima, e isto sem que se perca parte alguma da substância, mas somente a deformidade, se ele pode, por exemplo, remover alguma parte inconveniente ou desproporcionada, não cortando e separando essa parte do todo, mas quebrando e misturando o todo de modo a livrar-se do defeito sem diminuir a quantidade de seu material, não haveremos de ter em conta ainda mais alta o Operário onipotente?
Não será Ele capaz de remover e abolir todas as deformidades do corpo humano, sejam as comuns, sejam as raras e monstruosas, as quais, embora condizentes com esta vida miserável, não devem todavia ser concebidas em conexão com aquela bem-aventurança futura; e não será Ele capaz de removê-las de tal modo que, posto fim aos defeitos naturais mas indecorosos, a substância natural não sofra diminuição alguma?
E, por conseguinte, as pessoas obesas e as emaciadas não precisam temer que estarão no céu com tal figura que nem mesmo neste mundo teriam, se o pudessem evitar. Pois toda a beleza corporal consiste na proporção das partes, juntamente com certa agradabilidade da cor. Onde não proporção, o olho se ofende, seja porque algo falta, ou é pequeno demais, ou grande demais.
E assim não haverá deformidade alguma resultante de falta de proporção naquele estado em que tudo o que está errado é corrigido, e tudo o que é defeituoso é suprido a partir de recursos que o Criador conhece, e tudo o que é excessivo é removido sem destruir a integridade da substância. E quanto à cor agradável, quão notável será ela onde "os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai"! Devemos antes crer que esse esplendor foi ocultado aos olhos dos discípulos quando Cristo ressuscitou, do que supor que estivesse ausente.
Pois a fraca vista humana não poderia suportá-lo, e era necessário que assim O olhassem para que pudessem reconhecê-Lo. Para esse fim também lhes permitiu Ele tocar as marcas de suas feridas, e ainda comeu e bebeu, não porque necessitasse de alimento, mas porque podia tomá-lo se o quisesse. Ora, quando um objeto, embora presente, é invisível às pessoas que veem outras coisas que estão presentes, como dizemos que aquele esplendor estava presente mas era invisível àqueles que viam outras coisas, isto se chama em grego ἀορασία; e os nossos tradutores latinos, à falta de palavra melhor, traduziram-no por cæcitas (cegueira) no livro do Gênesis.
Dessa cegueira padeceram os homens de Sodoma quando buscavam a porta do justo e não a podiam achar. Mas se tivesse sido cegueira, isto é, se nada pudessem ver, então não teriam pedido a porta pela qual pudessem entrar na casa, mas guias que os pudessem conduzir para longe dali.
Mas o amor que dedicamos aos bem-aventurados mártires faz com que, não sei como, desejemos ver no reino celeste as marcas das feridas que receberam pelo nome de Cristo, e possivelmente as veremos. Pois isto não será deformidade, mas marca de honra, e acrescentará brilho à sua aparência, e uma beleza espiritual, ainda que não corporal. E contudo não precisamos crer que aqueles a quem foi dito "Nem um cabelo de vossa cabeça perecerá" hão de carecer, na ressurreição, daqueles membros de que foram privados em seu martírio.
Mas se for conveniente naquele novo reino ter algumas marcas dessas feridas ainda visíveis naquela carne imortal, os lugares onde foram feridos ou mutilados conservarão as cicatrizes sem que nenhum dos membros se perca. Portanto, embora seja inteiramente verdadeiro que nenhum dos defeitos que o corpo sofreu de aparecer na ressurreição, todavia não devemos reputar nem nomear como defeitos essas marcas de virtude.