A Cidade de Deus - Livro XXII 2
Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne
Da vontade eterna e imutável de Deus
É verdade que os homens ímpios fazem muitas coisas contrárias à vontade de Deus; mas tão grande é a sua sabedoria e o seu poder, que todas as coisas que parecem adversas ao seu propósito ainda assim tendem para aqueles fins e desfechos justos e bons que Ele mesmo de antemão conheceu.
E, por conseguinte, quando se diz que Deus muda a sua vontade, como, por exemplo, quando se irrita com aqueles para com quem era brando, são antes eles, e não Ele, que se mudam, e eles O encontram mudado na medida em que a sua experiência de sofrer pela sua mão é nova, assim como o sol se muda para os olhos feridos, e se torna, por assim dizer, ardente de brando que era, e nocivo de deleitoso que era, embora em si mesmo permaneça o mesmo que era.
Também se chama vontade de Deus aquilo que Ele opera nos corações daqueles que obedecem aos seus mandamentos; e disto diz o apóstolo: "Porque Deus é quem opera em vós tanto o querer." Assim como a "justiça" de Deus se emprega não somente da justiça pela qual Ele mesmo é justo, mas também daquela que Ele produz no homem que justifica, assim também se chama lei sua aquela que, embora dada por Deus, é antes a lei dos homens.
Pois certamente eram homens aqueles a quem Jesus disse: "Está escrito na vossa lei", ainda que em outro lugar leiamos: "A lei do seu Deus está em seu coração." Segundo esta vontade que Deus opera nos homens, diz-se também que Ele quer aquilo que Ele mesmo não quer, mas faz que o seu povo queira; assim como se diz que Ele conhece aquilo que fez conhecer àqueles que o ignoravam.
Pois quando o apóstolo diz: "Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus", não podemos supor que Deus ali pela primeira vez conheceu aqueles que por Ele foram de antemão conhecidos antes da fundação do mundo; mas diz-se que Ele os conheceu então, porque então os fez conhecer. Lembro-me, porém, de que discuti estes modos de expressão nos livros precedentes. Segundo esta vontade, pois, pela qual dizemos que Deus quer aquilo que faz ser querido por outros, de quem o futuro está oculto, Ele quer muitas coisas que não realiza.
Assim os seus santos, inspirados pela sua santa vontade, desejam muitas coisas que nunca acontecem. Eles oram, por exemplo, por certos indivíduos (oram de maneira pia e santa), mas o que pedem Ele não realiza, ainda que Ele mesmo, pelo seu próprio Espírito Santo, tenha operado neles essa vontade de orar. E, por conseguinte, quando os santos, em conformidade com a mente de Deus, querem e oram que todos os homens sejam salvos, podemos usar este modo de expressão: Deus quer e não realiza, querendo dizer que Aquele que os faz querer estas coisas Ele mesmo as quer.
Mas se falamos daquela sua vontade que é eterna, como o é a sua presciência, certamente Ele já fez todas as coisas no céu e na terra que quis, não somente as coisas passadas e presentes, mas até as ainda futuras. Mas antes da chegada daquele tempo em que Ele quis a ocorrência daquilo que de antemão conheceu e dispôs antes de todo o tempo, dizemos: Há de acontecer quando Deus quiser.
Mas se ignoramos não somente o tempo em que há de ser, mas até se de algum modo há de ser, dizemos: Há de acontecer se Deus quiser, não porque Deus terá então uma nova vontade que antes não tinha, mas porque aquele evento, que desde a eternidade foi preparado na sua imutável vontade, se realizará então.