A Cidade de Deus - Livro XXII 1
Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne
Da criação dos anjos e dos homens
Como prometemos no livro imediatamente precedente, este, o último de toda a obra, conterá uma discussão sobre a eterna bem-aventurança da cidade de Deus.
Esta bem-aventurança é chamada eterna, não porque haja de durar por muitas eras, ainda que ao fim chegasse a um termo, mas porque, segundo as palavras do evangelho, "o seu reino não terá fim". Tampouco gozará da mera aparência de perpetuidade que se mantém pelo surgir de novas gerações que ocupam o lugar das que se extinguiram, como numa planta sempre verde a mesma frescura parece continuar permanentemente, e a mesma aparência de densa folhagem se conserva pelo crescimento de folhas novas no lugar das que murcharam e caíram; mas naquela cidade todos os cidadãos serão imortais, gozando os homens agora, pela primeira vez, daquilo que os santos anjos nunca perderam.
E isto será realizado por Deus, o todo-poderosíssimo Fundador da cidade. Pois Ele o prometeu, e não pode mentir, e já cumpriu muitas de suas promessas, e fez muitas bondades não prometidas àqueles a quem agora pede que creiam que Ele fará também isto.
Pois é Ele quem no princípio criou o mundo cheio de todos os seres visíveis e inteligíveis, entre os quais nada criou melhor do que aqueles espíritos que dotou de inteligência, e tornou capazes de contemplá-lo e de gozá-lo, e uniu na nossa sociedade, à qual chamamos a santa e celeste cidade, e na qual o alimento de seu sustento e de sua bem-aventurança é o próprio Deus, como que seu comum sustento e nutrição. É Ele quem deu a esta natureza intelectual um livre-arbítrio de tal espécie, que, se quisesse abandonar a Deus, sua bem-aventurança, logo daí resultaria a miséria.
É Ele quem, quando previu que certos anjos haveriam, em seu orgulho, de desejar bastar a si mesmos para a sua bem-aventurança, e haveriam de abandonar o seu grande bem, não os privou desse poder, julgando ser mais condizente com seu poder e bondade tirar o bem do mal do que impedir que o mal viesse a existir. E, de fato, o mal nunca teria existido, se a natureza mutável (mutável, ainda que boa, e criada pelo Deus altíssimo e Bem imutável, que criou todas as coisas boas) não tivesse trazido o mal sobre si mesma pelo pecado. E este seu pecado é, em si mesmo, prova de que sua natureza era originalmente boa.
Pois, se ela não fosse muito boa, ainda que não igual ao seu Criador, a deserção de Deus como sua luz não poderia ter sido um mal para ela. Pois, assim como a cegueira é um vício do olho, e este próprio fato indica que o olho foi criado para ver a luz, e como, por conseguinte, o próprio vício prova que o olho é mais excelente do que os outros membros, porque é capaz de luz (pois, de outro modo, não seria vício do olho carecer de luz), assim a natureza que outrora gozou de Deus ensina, mesmo por seu próprio vício, que foi criada a melhor de todas, visto que agora é miserável porque não goza de Deus.
É Ele quem, com justíssimo castigo, condenou à eterna miséria os anjos que voluntariamente caíram, e recompensou aqueles que perseveraram em seu apego ao bem supremo com a garantia de estabilidade sem fim como prêmio de sua fidelidade. É Ele quem fez também o próprio homem reto, com a mesma liberdade de vontade: animal terreno, na verdade, mas apto para o céu se permanecesse fiel ao seu Criador, porém destinado à miséria própria de tal natureza se o abandonasse.
É Ele quem, quando previu que o homem, por sua vez, pecaria abandonando a Deus e quebrando a sua lei, não o privou do poder do livre-arbítrio, porque ao mesmo tempo previu que bem Ele próprio haveria de tirar do mal, e como desta raça mortal, merecida e justamente condenada, haveria de reunir, por sua graça, como agora o faz, um povo tão numeroso, que assim preenche e repara a falha feita pelos anjos caídos, e que, desse modo, aquela amada e celeste cidade não seja defraudada do pleno número de seus cidadãos, mas talvez possa até regozijar-se com uma população ainda mais transbordante.