A Cidade de Deus - Livro XV 5

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Do ato fratricida do fundador da cidade terrena e do crime correspondente do fundador de Roma

Assim, o fundador da cidade terrena foi um fratricida. Vencido pela inveja, matou o próprio irmão, cidadão da cidade eterna e peregrino na terra. Por isso, não nos devemos surpreender de que esse primeiro exemplo, ou, como dizem os gregos, arquétipo do crime, viesse a encontrar, muito tempo depois, um crime correspondente na fundação daquela cidade que estava destinada a reinar sobre tantas nações e a ser a cabeça desta cidade terrena de que falamos. Pois também daquela cidade, como mencionou um de seus poetas, "os primeiros muros foram manchados com o sangue de um irmão", ou, como registra a história romana, Remo foi morto por seu irmão Rômulo.
E, assim, não diferença entre a fundação desta cidade e a da cidade terrena, a não ser que Rômulo e Remo eram ambos cidadãos da cidade terrena. Ambos desejavam ter a glória de fundar a república romana, mas ambos não podiam ter tanta glória quanto teriam se um a reivindicasse; pois aquele que desejava ter a glória de governar certamente governaria menos se o seu poder fosse partilhado com um consorte vivo. A fim, portanto, de que toda a glória pudesse ser desfrutada por um só, o seu consorte foi eliminado; e, por esse crime, o império tornou-se de fato maior, porém inferior, ao passo que, de outro modo, teria sido menor, mas melhor.
Ora, esses irmãos, Caim e Abel, não eram ambos animados pelos mesmos desejos terrenos, nem o assassino invejava o outro por temer que, governando ambos, o seu próprio domínio fosse reduzido (pois Abel não se preocupava em governar naquela cidade que seu irmão edificava): ele foi movido por aquele ódio diabólico e invejoso com que os maus consideram os bons, por nenhuma outra razão senão porque estes são bons enquanto eles próprios são maus.
Pois a posse da bondade de modo algum diminui por ser partilhada com um companheiro, seja permanente, seja temporariamente admitido; pelo contrário, a posse da bondade aumenta na proporção da concórdia e da caridade de cada um daqueles que a partilham. Em suma, aquele que não está disposto a partilhar essa posse não pode tê-la; e aquele que mais de boa vontade admite outros a partilhá-la terá para si a maior abundância.
A contenda, pois, entre Rômulo e Remo mostra como a cidade terrena está dividida contra si mesma; o que ocorreu entre Caim e Abel ilustrou o ódio que subsiste entre as duas cidades, a de Deus e a dos homens. Os maus guerreiam contra os maus; os bons também guerreiam contra os maus. Mas com os bons, os homens bons, ou ao menos os perfeitamente bons, não podem guerrear; ainda que, enquanto apenas avançam rumo à perfeição, guerreiem nesta medida: que todo homem bom resiste aos outros naqueles pontos em que resiste a si mesmo.
E, em cada indivíduo, "a carne cobiça contra o espírito, e o espírito contra a carne". Essa cobiça espiritual, portanto, pode estar em guerra com a cobiça carnal de outro homem; ou a cobiça carnal pode estar em guerra com os desejos espirituais de outro, de algum modo semelhante àquele em que os homens bons e os maus estão em guerra; ou, ainda com maior certeza, as cobiças carnais de dois homens, bons mas ainda não perfeitos, contendem entre si, assim como os maus contendem com os maus, até que a saúde daqueles que estão sob o tratamento da graça alcance a vitória final.