A Cidade de Deus - Livro XV 6
Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio
Das fraquezas que mesmo os cidadãos da Cidade de Deus padecem durante esta peregrinação terrena, em castigo do pecado, e das quais são curados pelo cuidado de Deus
Esta enfermidade, isto é, aquela desobediência de que falamos no livro décimo quarto, é o castigo da primeira desobediência. Não é, portanto, natureza, mas vício; e por isso se diz aos bons que crescem na graça e vivem nesta peregrinação pela fé: "Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo." De igual modo se diz em outro lugar: "Admoestai os desordeiros, consolai os pusilânimes, amparai os fracos, sede pacientes para com todos.
Vede que ninguém retribua a outrem mal por mal." E em outra passagem: "Se algum homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, restaurai-o com espírito de mansidão, olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado." E noutro lugar: "Não se ponha o sol sobre a vossa ira." E no Evangelho: "Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só." Assim também, acerca dos pecados que podem causar escândalo, diz o apóstolo: "Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor." Para este fim, e para que guardemos aquela paz sem a qual ninguém pode ver o Senhor, são dados muitos preceitos que cuidadosamente inculcam o perdão mútuo; entre os quais podemos contar aquela terrível palavra em que se ordena ao servo que pague a dívida, já perdoada, de dez mil talentos, porque não perdoou ao seu conservo a dívida de duzentos denários.
A esta parábola o Senhor Jesus acrescentou as palavras: "Assim também vos fará meu Pai celestial, se do íntimo dos vossos corações não perdoardes, cada um a seu irmão." É deste modo que os cidadãos da Cidade de Deus são curados, enquanto ainda peregrinam nesta terra e suspiram pela paz da sua pátria celestial. O Espírito Santo também opera no interior, para que a medicina aplicada externamente tenha algum bom resultado.
De outro modo, ainda que o próprio Deus se sirva das criaturas que lhe estão sujeitas, e sob alguma forma humana se dirija aos nossos sentidos humanos, quer recebamos tais impressões no sono, quer em alguma aparição exterior, contudo, se Ele não move e atua sobre a mente pela sua própria graça interior, nenhuma pregação da verdade tem proveito algum. Mas isto Deus o faz, distinguindo entre os vasos de ira e os vasos de misericórdia, por sua própria providência muito secreta, mas muito justa.
Quando Ele mesmo socorre a alma por seus modos ocultos e admiráveis, e o pecado que habita em nossos membros, e que é, como ensina o apóstolo, antes o castigo do pecado, não reina em nosso corpo mortal para lhe obedecer às concupiscências, e quando já não oferecemos os nossos membros como instrumentos de iniquidade, então a alma converte-se dos seus próprios desejos maus e egoístas, e, possuindo-a Deus, ela possui-se a si mesma em paz ainda nesta vida, e depois, com saúde perfeita e dotada de imortalidade, reinará sem pecado em paz eterna.