A Cidade de Deus - Livro XV 26

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Que a arca que Noé recebeu ordem de construir prefigura, em todos os aspectos, Cristo e a Igreja

Além disso, visto que Deus ordenou a Noé, homem justo e, como diz a veraz Escritura, homem perfeito em sua geração (não, decerto, com a perfeição dos cidadãos da cidade de Deus naquela condição imortal em que se igualam aos anjos, mas tão perfeito quanto podem ser os que ainda peregrinam neste mundo), visto que Deus lhe ordenou, repito, construir uma arca, na qual pudesse ser salvo da destruição do dilúvio juntamente com a sua família, isto é, sua esposa, seus filhos e suas noras, e juntamente com os animais que, em obediência ao mandamento de Deus, vieram a ele para dentro da arca: tudo isso é certamente figura da cidade de Deus que peregrina neste mundo, ou seja, da Igreja, que é salva pelo madeiro no qual foi suspenso o Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus.
Pois até mesmo as suas próprias dimensões, em comprimento, largura e altura, representam o corpo humano no qual Ele veio, conforme havia sido predito. Com efeito, o comprimento do corpo humano, do alto da cabeça à planta do pé, é seis vezes a sua largura de um lado ao outro, e dez vezes a sua profundidade ou espessura, medida das costas à frente: isto é, se medirdes um homem deitado de costas ou de bruços, ele é seis vezes mais comprido da cabeça aos pés do que largo de um lado ao outro, e dez vezes mais comprido do que alto a partir do chão. E por isso a arca foi feita de trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura.
E o fato de ter uma porta feita no seu lado certamente significava a ferida que se produziu quando o lado do Crucificado foi traspassado pela lança: pois por ela entram os que vêm a Ele; porquanto dali fluíram os sacramentos pelos quais são iniciados os que creem. E o fato de ter sido ordenado que fosse feita de madeiras esquadrejadas significa a firmeza inabalável da vida dos santos; pois, por mais que vireis um cubo, ele permanece de pé. E as demais particularidades da construção da arca são sinais de características da Igreja.
Mas não temos agora tempo de prosseguir neste assunto; e, na verdade, nos detivemos sobre ele na obra que escrevemos contra Fausto, o maniqueu, o qual nega que haja algo profetizado a respeito de Cristo nos livros hebraicos. Pode ser que a exposição de um homem supere a de outro, e que a nossa não seja a melhor; mas tudo o que se disser deve ser referido a esta cidade de Deus de que falamos, a qual peregrina neste mundo iníquo como em um dilúvio, ao menos se o expositor não quiser desviar-se amplamente do sentido do autor.
Por exemplo, a interpretação que dei na obra contra Fausto, das palavras "com andares inferior, segundo e terceiro a farás", é a seguinte: porque a Igreja é reunida dentre todas as nações, diz-se que ela tem dois andares, para representar os dois gêneros de homens, a saber, a circuncisão e a incircuncisão, ou, como o apóstolo de outro modo os chama, judeus e gentios; e diz-se que tem três andares, porque todas as nações foram repovoadas a partir dos três filhos de Noé. Ora, qualquer um pode objetar a esta interpretação e propor outra que se harmonize com a regra da fé.
Pois, como a arca devia ter compartimentos não nos andares inferiores, mas também nos superiores, que eram chamados de "terceiros andares", de modo que houvesse um espaço habitável no terceiro pavimento a contar da base, alguém pode interpretar que estes significam as três graças recomendadas pelo apóstolo: a fé, a esperança e a caridade. Ou, de modo ainda mais conveniente, pode-se supor que representem aquelas três colheitas do evangelho, a trinta, a sessenta e a cem por um: o casto matrimônio habitando no pavimento térreo, a casta viuvez no andar superior e a casta virgindade no andar mais alto. Ou pode-se dar qualquer interpretação melhor, contanto que se mantenha a referência a esta cidade.
E a mesma afirmação eu faria a respeito de todos os demais pormenores desta passagem que requerem exposição, a saber: que, embora se deem explicações diferentes, todas elas devem, contudo, concordar com a única e harmoniosa católica.