A Cidade de Deus - Livro XV 25

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Da ira de Deus, que não inflama o seu ânimo nem perturba a sua tranquilidade imutável

A ira de Deus não é uma emoção que lhe perturbe o ânimo, mas um juízo pelo qual se inflige castigo ao pecado. Do mesmo modo, o seu pensar e o seu reconsiderar são a razão imutável que muda as coisas; pois Deus não se arrepende, como o homem, de algo que tenha feito, porque em todas as coisas a sua decisão é tão inflexível quanto certa é a sua presciência.
Mas, se a Escritura não empregasse expressões como as acima referidas, não se insinuaria familiarmente no ânimo de todas as classes de homens, a quem busca alcançar para o seu bem, a fim de atemorizar os soberbos, despertar os descuidados, exercitar os curiosos e satisfazer os inteligentes; e isto não poderia fazer se primeiro não se inclinasse e, de certo modo, não descesse até eles, onde jazem. Ora, o fato de ela anunciar a morte a todos os animais da terra e do ar é uma declaração da imensidão do desastre que se aproximava: não que ameace de destruição os animais irracionais como se também eles a tivessem merecido pelo pecado.