A Cidade de Deus - Livro XV 27

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Da arca e do dilúvio, e de que não podemos concordar com os que recebem a história nua, mas rejeitam a interpretação alegórica, nem com os que sustentam o sentido figurado e não o histórico

Contudo, ninguém deve supor ou que estas coisas foram escritas sem propósito algum, ou que devamos estudar apenas a verdade histórica, à parte de quaisquer significados alegóricos; ou, ao contrário, que sejam apenas alegorias, e que não tenha havido fato algum semelhante, ou que, seja como for, não haja aqui nenhuma profecia da Igreja. Pois que homem de bom senso de sustentar que livros tão religiosamente preservados durante milhares de anos, e transmitidos por sucessão tão ordenada, foram escritos sem objetivo, ou que somente os fatos históricos nus devam ser considerados quando os lemos?
Pois, para não mencionar outros exemplos, se o número dos animais exigiu a construção de uma arca de grandes dimensões, onde estava a necessidade de enviar para dentro dela dois animais imundos e sete limpos de cada espécie, quando ambos poderiam ter sido preservados em números iguais? Ou não poderia Deus, que ordenou que fossem preservados a fim de repovoar a raça, restaurá-los do mesmo modo como os havia criado?
Mas os que sustentam que estas coisas nunca aconteceram, e são apenas figuras que representam outras coisas, supõem, em primeiro lugar, que não poderia haver um dilúvio tão grande a ponto de a água subir quinze côvados acima das mais altas montanhas, porque se diz que as nuvens não podem elevar-se acima do cume do monte Olimpo, pois este alcança o céu, onde não existe aquela atmosfera mais densa em que os ventos, as nuvens e as chuvas têm sua origem. Não consideram que ali pode existir a terra, o mais denso de todos os elementos; ou talvez neguem que o cume da montanha seja terra.
Por que, então, esses medidores e pesadores dos elementos sustentam que a terra pode ser elevada àquelas alturas aéreas, mas a água não, ao passo que admitem ser a água mais leve e mais propensa a subir do que a terra? Que razão apresentam para que a terra, o elemento mais pesado e inferior, tenha por tantas eras alcançado o tranquilo éter, enquanto à água, mais leve e mais apta a subir, não se permite fazer o mesmo nem por um breve espaço de tempo?
Dizem também que a área daquela arca não poderia conter tantas espécies de animais de ambos os sexos, dois dos imundos e sete dos limpos. Mas parece-me que contam apenas uma área de trezentos côvados de comprimento por cinquenta de largura, e não se lembram de que havia outra semelhante no andar acima, e ainda outra tão grande no andar acima desse de novo; e que havia, por conseguinte, uma área de novecentos côvados por cento e cinquenta.
E se aceitarmos o que Orígenes sugeriu com certa propriedade, isto é, que Moisés, o homem de Deus, sendo, como está escrito, "instruído em toda a sabedoria dos egípcios", e que se deleitava na geometria, pode ter tido em mente côvados geométricos, dos quais dizem que um equivale a seis dos nossos côvados, então quem não que capacidade tais dimensões conferem à arca? Pois, quanto à objeção de que uma arca de tal tamanho não poderia ser construída, trata-se de calúnia muito tola; porquanto sabem que se construíram cidades enormes, e deveriam lembrar-se de que a arca esteve cem anos em construção.
Ou, porventura, embora a pedra possa aderir à pedra quando cimentada com nada mais que cal, de modo que se possa construir um muro de várias milhas, não poderá a tábua ser unida à tábua por encaixes, cavilhas, pregos e betume, de modo a construir uma arca que não foi feita com costelas curvas, mas com madeiramento reto, que não havia de ser lançada à água por seus construtores, mas erguida pela pressão natural da água quando esta a alcançasse, e que havia de ser preservada de naufrágio enquanto flutuava antes pela providência divina do que pela perícia humana?
Quanto a outra indagação costumeira dos escrupulosos a respeito das criaturas diminutas, não tais como os ratos e os lagartos, mas também os gafanhotos, os besouros, as moscas, as pulgas e assim por diante, se não haveria na arca um número delas maior do que o determinado por Deus em sua ordem, deve-se lembrar às pessoas que se comovem com essa dificuldade que as palavras "todo réptil da terra" apenas indicam que não era necessário preservar na arca os animais que podem viver na água, quer os peixes que vivem submersos nela, quer as aves marinhas que nadam em sua superfície.
Em seguida, quando se diz "macho e fêmea", sem dúvida se faz referência à restauração das raças, e por conseguinte não havia necessidade de que estivessem na arca aquelas criaturas que nascem sem a união dos sexos, de coisas inanimadas ou de sua corrupção; ou, se estavam na arca, podiam ali estar como comumente estão nas casas, sem qualquer número determinado; ou, se era necessário que houvesse um número definido de todos aqueles animais que naturalmente não podem viver na água, para que assim o sacratíssimo mistério que estava sendo representado fosse corporificado e perfeitamente figurado em realidades concretas, ainda assim isto não era cuidado de Noé ou de seus filhos, mas de Deus.
Pois Noé não capturou os animais e os pôs na arca, mas deu-lhes entrada à medida que vinham buscá-la. Pois esta é a força das palavras "virão a ti": isto é, não pelo esforço do homem, mas pela vontade de Deus. Mas certamente não se nos exige crer que também viessem aqueles que não têm sexo; pois se diz expressa e definidamente: "Serão macho e fêmea." Porque alguns animais que nascem da corrupção, mas que depois eles próprios copulam e produzem prole, como as moscas; outros, porém, que não têm sexo, como as abelhas.
Quanto, em seguida, àqueles animais que têm sexo, mas sem capacidade de propagar a sua espécie, como os mulos e as mulas, é provável que não estivessem na arca, mas que se considerasse suficiente preservar os seus progenitores, a saber, o cavalo e o jumento; e isto se aplica a todos os híbridos. Contudo, se era necessário para a integridade do mistério, ali estavam; pois até esta espécie tem "macho e fêmea".
Outra questão se costuma levantar a respeito do alimento dos animais carnívoros: se, sem transgredir a ordem que fixou o número a ser preservado, foram necessariamente incluídos na arca outros para o seu sustento; ou, como é mais provável, se poderia haver algum alimento que não fosse carne e que, ainda assim, conviesse a todos. Pois sabemos quantos animais cujo alimento é a carne comem também produtos vegetais e frutos, especialmente figos e castanhas. Que admiração há, portanto, se aquele homem sábio e justo foi instruído por Deus a respeito do que conviria a cada um, de modo que, sem carne, preparou e armazenou provisão própria para cada espécie?
E o que que a fome não faria os animais comer? Ou o que não poderia ser tornado doce e saudável por Deus, que, com divina facilidade, poderia tê-los capacitado a passar inteiramente sem alimento, se não tivesse sido requisito da integridade de tão grande mistério que fossem alimentados? Mas ninguém, exceto um homem contencioso, pode supor que não houvesse uma prefiguração da Igreja em detalhe tão múltiplo e circunstanciado.
Pois as nações de tal modo encheram a Igreja, e estão compreendidas na estrutura de sua unidade, os limpos e os imundos juntos, até o fim determinado, que este único cumprimento tão manifesto não deixa dúvida de como devemos interpretar até mesmo aqueles outros que são algo mais obscuros e que não podem ser discernidos com tanta facilidade.
E sendo assim, se nem mesmo o mais audacioso de presumir afirmar que estas coisas foram escritas sem propósito, ou que, embora os acontecimentos realmente tenham sucedido, nada significam, ou que não sucederam realmente, mas são apenas alegoria, ou que, em todo caso, estão longe de ter qualquer referência figurada à Igreja; se, por outro lado, ficou demonstrado que devemos antes crer que houve um propósito sábio em terem sido confiadas à memória e à escrita, e que de fato aconteceram, e têm um significado, e que esse significado tem uma referência profética à Igreja, então este livro, tendo servido a esse propósito, pode agora ser encerrado, para que prossigamos a traçar, na história posterior ao dilúvio, os cursos das duas cidades: a terrena, que vive segundo os homens, e a celeste, que vive segundo Deus.