A Cidade de Deus - Livro XV 23
Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio
Se devemos crer que os anjos, que são de substância espiritual, se enamoraram da beleza das mulheres, buscaram-nas em casamento e que dessa união nasceram gigantes
No terceiro livro desta obra (cap. 5) fizemos uma referência de passagem a esta questão, mas não decidimos se os anjos, na medida em que são espíritos, poderiam ter comércio corporal com mulheres. Pois está escrito: "Aquele que faz dos seus anjos espíritos", isto é, faz daqueles que por natureza são espíritos os seus anjos, destinando-os ao ofício de levar as suas mensagens. Pois a palavra grega ἄγγελος, que em latim aparece como "angelus", significa mensageiro. Mas resta duvidoso se o salmista fala dos seus corpos quando acrescenta "e dos seus ministros um fogo abrasador", ou se quer dizer que os ministros de Deus devem arder de amor como de um fogo espiritual.
Contudo, a mesma digna de fé Escritura testemunha que os anjos apareceram aos homens em corpos tais que não apenas podiam ser vistos, mas também tocados. Há também um rumor muito difundido, que muitos verificaram por sua própria experiência, ou que pessoas dignas de fé, tendo ouvido a experiência de outros, corroboram: que os silvanos e os faunos, comumente chamados "íncubos", muitas vezes investiram perversamente contra mulheres e nelas saciaram a sua luxúria; e que certos demônios, chamados Duses pelos gauleses, constantemente tentam e efetuam essa impureza, o que é tão geralmente afirmado que seria impudente negá-lo.
A partir dessas afirmações, na verdade, não ouso determinar se há alguns espíritos revestidos de uma substância aérea (pois esse elemento, mesmo quando agitado por um leque, é sensivelmente percebido pelo corpo), e que são capazes de luxúria e de se misturar sensivelmente com mulheres; mas certamente eu de modo algum poderia crer que os santos anjos de Deus pudessem àquele tempo ter caído de tal maneira, nem posso pensar que seja deles que o apóstolo Pedro disse: "Pois, se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, para serem reservados para o juízo." Penso que ele fala antes daqueles que primeiro apostataram de Deus, juntamente com o seu chefe, o diabo, que invejosamente enganou o primeiro homem sob a forma de uma serpente.
Mas a mesma santa Escritura oferece o mais amplo testemunho de que até homens piedosos foram chamados anjos; pois de João está escrito: "Eis que envio o meu mensageiro (anjo) diante da tua face, o qual preparará o teu caminho." E o profeta Malaquias, por uma graça peculiar especialmente a ele comunicada, foi chamado anjo.
Mas alguns se comovem com o fato de termos lido que o fruto da união entre aqueles que são chamados anjos de Deus e as mulheres que amaram não foram homens como os de nossa própria espécie, mas gigantes; como se mesmo em nosso próprio tempo não nascessem (como mencionei acima) homens de estatura muito maior do que a estatura comum. Não houve em Roma, poucos anos atrás, quando a destruição da cidade agora consumada pelos godos se aproximava, uma mulher que, com seu pai e sua mãe, ultrapassava todos os demais por seu tamanho gigantesco?
Multidões surpreendentes vinham de toda parte para vê-la, e o que mais lhes impressionava era a circunstância de que nenhum de seus pais alcançava de fato a mais alta estatura comum. Gigantes, portanto, bem podiam nascer, mesmo antes que os filhos de Deus, que também são chamados anjos de Deus, formassem união com as filhas dos homens, ou daqueles que viviam segundo os homens, isto é, antes que os filhos de Sete formassem união com as filhas de Caim.
Pois assim fala mesmo a própria Escritura canônica no livro em que lemos sobre isto; suas palavras são: "E aconteceu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas [boas]; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. E disse o Senhor Deus: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem, porque ele também é carne; contudo, os seus dias serão cento e vinte anos.
Havia gigantes na terra naqueles dias; e também depois disso, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens, e elas lhes geraram filhos; estes foram os gigantes, homens de renome." Estas palavras do livro divino indicam suficientemente que já havia gigantes na terra naqueles dias, em que os filhos de Deus tomaram por mulheres as filhas dos homens, quando as amaram porque eram boas, isto é, formosas. Pois é costume desta Escritura chamar "bons" aqueles que são belos de aparência. Mas, depois que esta união se havia formado, então também nasceram gigantes.
Pois as palavras são: "Havia gigantes na terra naqueles dias, e também depois disso, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens." Portanto havia gigantes tanto antes, "naqueles dias", quanto "também depois disso". E as palavras "elas lhes geraram filhos" mostram com bastante clareza que, antes que os filhos de Deus caíssem desta maneira, geravam filhos para Deus, não para si mesmos, isto é, não movidos pela luxúria do comércio sexual, mas cumprindo o dever da propagação, com a intenção de produzir não uma família para gratificar o próprio orgulho, mas cidadãos para povoar a cidade de Deus; e a estes, como anjos de Deus, levariam a mensagem de que deviam pôr a sua esperança em Deus, à semelhança daquele que nasceu de Sete, o filho da ressurreição, e que esperou invocar o nome do Senhor Deus, em cuja esperança eles e a sua descendência seriam co-herdeiros das bênçãos eternas e irmãos na família da qual Deus é o Pai.
Mas que aqueles anjos não eram anjos no sentido de não serem homens, como alguns supõem, a própria Escritura decide, pois declara sem ambiguidade que eram homens.
Pois, depois de se haver primeiro afirmado que "os anjos de Deus viram as filhas dos homens, que eram formosas, e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram", logo se acrescentou: "E disse o Senhor Deus: Não contenderá o meu Espírito para sempre com estes homens, porque eles também são carne." Pois pelo Espírito de Deus haviam sido feitos anjos de Deus e filhos de Deus; mas, declinando para coisas inferiores, são chamados homens, nome de natureza, não de graça; e são chamados carne, como desertores do Espírito e, por sua deserção, desertados [por Ele].
A Septuaginta, na verdade, chama-os tanto anjos de Deus quanto filhos de Deus, embora nem todos os exemplares apresentem isto, tendo alguns apenas o nome "filhos de Deus". E Áquila, que os judeus preferem aos outros intérpretes, não traduziu nem anjos de Deus nem filhos de Deus, mas filhos dos deuses. Mas ambos estão corretos.
Pois eram tanto filhos de Deus, e assim irmãos de seus próprios pais, que eram filhos do mesmo Deus; quanto filhos dos deuses, porque gerados por deuses, juntamente com os quais eles próprios também eram deuses, segundo aquela expressão do salmo: "Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo." Pois com justiça se crê que os tradutores da Septuaginta receberam o Espírito de profecia; de modo que, se fizeram quaisquer alterações sob a autoridade dele, e não se ativeram a uma tradução estrita, não poderíamos duvidar de que isto foi divinamente ditado.
Contudo, pode-se dizer que a palavra hebraica é ambígua e suscetível de qualquer das duas traduções: "filhos de Deus" ou "filhos dos deuses".
Omitamos, então, as fábulas daquelas escrituras que são chamadas apócrifas, porque a sua origem obscura era desconhecida dos pais de quem a autoridade das verdadeiras Escrituras nos foi transmitida por uma sucessão certíssima e bem comprovada. Pois, embora haja alguma verdade nesses escritos apócrifos, eles contêm tantas afirmações falsas que não têm autoridade canônica. Não podemos negar que Enoque, o sétimo desde Adão, deixou alguns escritos divinos, pois isto é afirmado pelo apóstolo Judas em sua epístola canônica.
Mas não é sem razão que esses escritos não têm lugar naquele cânon das Escrituras que foi preservado no templo do povo hebreu pela diligência de sacerdotes sucessivos; pois a sua antiguidade os tornava suspeitos, e era impossível verificar se eram seus escritos genuínos, e não foram apresentados como genuínos pelas pessoas que se constatou haverem cuidadosamente preservado os livros canônicos por uma transmissão sucessiva.
De modo que os escritos que são produzidos sob o seu nome, e que contêm essas fábulas sobre os gigantes, dizendo que os pais deles não eram homens, são, com razão, julgados por homens prudentes como não genuínos; assim como muitos escritos são produzidos por hereges sob os nomes tanto de outros profetas quanto, mais recentemente, sob os nomes dos apóstolos, todos os quais, após cuidadoso exame, foram postos à parte da autoridade canônica sob o título de Apócrifos.
Não há, portanto, dúvida de que, segundo as Escrituras canônicas hebraicas e cristãs, havia muitos gigantes antes do dilúvio, e que estes eram cidadãos da sociedade terrena dos homens, e que os filhos de Deus, que eram, segundo a carne, os filhos de Sete, decaíram para esta comunidade quando abandonaram a justiça. Nem precisamos admirar-nos de que gigantes nascessem mesmo destes. Pois nem todos os seus filhos eram gigantes; mas havia mais então do que nos demais períodos desde o dilúvio.
E aprouve ao Criador produzi-los, para que assim se demonstrasse que nem a beleza, nem tampouco o tamanho e a força, são de muito valor para o homem sábio, cuja bem-aventurança reside em bens espirituais e imortais, em dádivas muito melhores e mais duradouras, nos bens que são propriedade peculiar dos bons, e não são partilhados igualmente por bons e maus. É isto o que outro profeta confirma quando diz: "Estes foram os gigantes, famosos desde o princípio, que eram de tão grande estatura e tão peritos na guerra.
A estes não escolheu o Senhor, nem lhes deu o caminho do conhecimento; mas foram destruídos porque não tinham sabedoria, e pereceram por sua própria insensatez."