A Cidade de Deus - Livro XV 24

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Como devemos entender aquilo que o Senhor disse acerca dos que pereceriam no dilúvio: "Os seus dias serão"

Mas aquilo que Deus disse, "Os seus dias serão cento e vinte anos", não se deve entender como uma predição de que, dali em diante, os homens não viveriam por mais de cento e vinte anos, pois, mesmo depois do dilúvio, encontramos quem tenha vivido mais de quinhentos anos, mas devemos entender que Deus disse isto quando Noé havia quase completado o seu quinto século, isto é, havia vivido quatrocentos e oitenta anos, os quais a Escritura, como frequentemente usa o nome do todo para designar a parte maior, chama de quinhentos anos.
Ora, o dilúvio veio no ano seiscentos da vida de Noé, no segundo mês; e assim foram preditos cento e vinte anos como sendo o tempo que restava àqueles que estavam condenados, anos os quais, uma vez transcorridos, seriam eles destruídos pelo dilúvio. E não é sem razão que se crê que o dilúvio veio como veio, porque não se achavam sobre a terra quaisquer homens que não fossem dignos de partilhar de uma morte tão manifestamente judicial: não que um homem bom, que de todo modo de morrer um dia, ficasse em nada pior por causa de tal morte depois que ela houvesse passado. Não obstante, no dilúvio não morreu nenhum daqueles que a sagrada Escritura menciona como descendentes de Sete.
Mas eis aqui o relato divino da causa do dilúvio: "Viu o Senhor Deus que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração era continuamente má. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra, e isso lhe pesou no seu coração. E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra: tanto o homem como o animal, e o réptil, e as aves do céu; pois estou irado por os haver feito."