A Cidade de Deus - Livro XV 13

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Se, ao computar os anos, devemos seguir o texto hebraico ou a Septuaginta

Mas, se digo isto, logo me responderão: uma das mentiras dos judeus." Disso, porém, tratamos acima, mostrando que não pode ser que homens de reputação tão íntegra como os setenta tradutores tivessem falsificado a sua versão.
Contudo, se lhes pergunto qual das duas hipóteses é mais crível, se a de que a nação judaica, dispersa por toda parte, pudesse ter conspirado unanimemente para forjar esta mentira e assim, por inveja da autoridade que as suas Escrituras conferem aos outros, ter-se privado da própria verdade; ou a de que setenta homens, que eles próprios também eram judeus, reunidos num único lugar (pois Ptolomeu, rei do Egito, os havia congregado para esta obra), tivessem invejado às nações estrangeiras essa mesma verdade e, de comum acordo, inserido tais erros: quem não qual das duas se pode crer mais natural e prontamente?
Mas longe esteja de qualquer homem prudente acreditar que os judeus, por mais maliciosos e obstinados que fossem, pudessem ter adulterado tantos manuscritos tão amplamente dispersos; ou que aqueles renomados setenta indivíduos tivessem qualquer propósito comum de negar a verdade às nações. Deve-se, portanto, sustentar de modo mais plausível que, quando os seus labores começaram primeiramente a ser transcritos a partir do exemplar da biblioteca de Ptolomeu, algum equívoco desse tipo pôde insinuar-se na primeira cópia feita e, a partir dela, difundir-se por toda parte; e que isto pôde nascer não de fraude alguma, mas de um simples erro de copista.
Esta é uma explicação suficientemente plausível para a dificuldade relativa à vida de Matusalém, e também para aquele outro caso em que uma diferença no total de vinte e quatro anos.
Mas naqueles casos em que uma semelhança metódica na falsificação, de modo que uniformemente uma das versões atribui ao período anterior ao nascimento de um filho e sucessor cem anos a mais que a outra, e ao período posterior cem anos a menos, e vice-versa, para que os totais concordem, e isto vale para a primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e sétima gerações, nesses casos o erro parece ter, por assim dizer, uma certa espécie de constância, e não tem o sabor do acaso, mas do propósito deliberado.
Por conseguinte, aquela diversidade de números que distingue os exemplares hebraicos dos gregos e latinos da Escritura, e que consiste numa adição e dedução uniforme de cem anos em cada tempo de vida por várias gerações consecutivas, não deve ser atribuída nem à malícia dos judeus, nem a homens tão diligentes e prudentes como os setenta tradutores, mas ao erro do copista a quem se permitiu primeiramente transcrever o manuscrito da biblioteca do rei acima mencionado.
Pois ainda agora, nos casos em que os números nada contribuem para a compreensão mais fácil ou para o conhecimento mais satisfatório de algo, eles são transcritos com descuido, e emendados com descuido ainda maior. Pois quem se dará ao trabalho de aprender quantos milhares de homens continham as diversas tribos de Israel? Não nenhum benefício resultante de tal conhecimento. Ou quantos homens que estejam cientes da imensa vantagem que jaz oculta neste conhecimento?
Mas neste caso, em que durante tantas gerações consecutivas se acrescentam cem anos num manuscrito onde não são contados no outro, e depois, após o nascimento do filho e sucessor, os anos que faltavam são acrescentados, é óbvio que o copista que urdiu este arranjo tencionou insinuar que os antediluvianos viveram um número excessivo de anos somente porque cada ano era excessivamente breve, e que procurou chamar a atenção para este fato pela declaração da idade de puberdade em que se tornavam capazes de gerar filhos.
Pois, para que os incrédulos não tropeçassem na dificuldade de um tempo de vida tão longo, ele insinuou que cem dos anos deles equivaliam a apenas dez dos nossos; e esta insinuação ele transmitiu acrescentando cem anos sempre que encontrava a idade abaixo de cento e sessenta anos ou por aí, deduzindo de novo esses anos do período posterior ao nascimento do filho, para que o total harmonizasse. Por este meio ele tencionava atribuir a geração da prole a uma idade conveniente, sem diminuir a soma total dos anos atribuídos ao tempo de vida de cada indivíduo.
E o próprio fato de que, na sexta geração, ele se afastou desta prática uniforme inclina-nos tanto mais a crer que, quando a circunstância a que nos referimos exigia as suas alterações, ele as fazia; vendo-se que, quando esta circunstância não existia, ele não fazia alteração alguma.
Pois na mesma geração ele encontrou no manuscrito hebraico que Jarede viveu, antes de gerar Enoque, cento e sessenta e dois anos, o que, segundo o cômputo do ano breve, equivale a dezesseis anos e pouco menos de dois meses, idade capaz de procriação; e portanto não era necessário acrescentar cem anos breves e assim fazer a idade ser de vinte e seis anos da duração usual; e, naturalmente, não era necessário deduzir, após o nascimento do filho, anos que ele não havia acrescentado antes dele. E assim sucede que, neste caso, não variação alguma entre os dois manuscritos.
Isto é corroborado ainda mais pelo fato de que, na oitava geração, ao passo que os livros hebraicos atribuem a Matusalém cento e oitenta e dois anos antes do nascimento de Lameque, os nossos lhe atribuem vinte a menos, embora habitualmente se acrescentem cem anos a este período; depois, após o nascimento de Lameque, os vinte anos são restituídos, de modo a igualar o total nos dois livros.
Pois, se o seu desígnio era que estes cento e setenta anos fossem entendidos como dezessete, de modo a convir à idade de puberdade, assim como não havia necessidade de ele acrescentar nada, também não havia de subtrair nada; pois neste caso ele encontrou uma idade apta à geração de filhos, em razão da qual ele costumava acrescentar aqueles cem anos nos casos em que não encontrava a idade suficiente. Esta diferença de vinte anos poderíamos, de fato, ter suposto que acontecera por acaso, se ele não tivesse tido o cuidado de restituí-los depois, assim como os havia deduzido do período anterior, para que não houvesse deficiência no total.
Ou devemos talvez supor que havia o desígnio ainda mais astuto de ocultar a adição deliberada e uniforme de cem anos ao primeiro período e a sua dedução do período subsequente: terá ele tencionado ocultar isto fazendo algo semelhante, isto é, acrescentando e deduzindo, na verdade não um século, mas alguns anos, mesmo num caso em que não havia necessidade de fazê-lo?
Mas seja o que se pense disto, quer se creia que ele assim procedeu ou não, quer, enfim, seja assim ou não, eu não teria dúvida alguma de que, quando se encontra qualquer diversidade nos livros, visto que ambos não podem ser fiéis ao fato, fazemos bem em crer de preferência naquela língua a partir da qual se fez a tradução para outra pelos tradutores. Pois três manuscritos gregos, um latino e um siríaco, que concordam entre si, e em todos eles se diz que Matusalém morreu seis anos antes do dilúvio.