A Cidade de Deus - Livro XV 12
Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio
Da opinião dos que não creem que nesses tempos primitivos os homens viviam tanto quanto se afirma
De modo algum se deve dar ouvidos àqueles que supõem que naqueles tempos os anos eram contados de maneira diferente, e que eram tão curtos que um dos nossos anos poderia ser tido por igual a dez dos deles. De sorte que afirmam que, quando lemos ou ouvimos que algum homem viveu novecentos anos, devemos entender noventa: dez daqueles anos perfazendo apenas um dos nossos, e dez dos nossos equivalendo a cem dos deles. Por conseguinte, conforme supõem, Adão tinha vinte e três anos de idade quando gerou Sete, e o próprio Sete tinha vinte anos e seis meses quando nasceu seu filho Enos, embora a Escritura chame esses meses de duzentos e cinco anos.
Pois, segundo a hipótese daqueles cuja opinião expomos, era costume dividir um ano tal como o nosso em dez partes, e chamar cada parte de ano. E cada uma dessas partes era composta de seis dias elevados ao quadrado, porque Deus terminou suas obras em seis dias, para que descansasse no sétimo. Sobre isto discorri segundo as minhas forças no décimo primeiro livro. Ora, seis ao quadrado, ou seis vezes seis, dá trinta e seis dias; e isto multiplicado por dez perfaz trezentos e sessenta dias, ou doze meses lunares.
Quanto aos cinco dias restantes necessários para completar o ano solar, e à quarta parte de um dia, que exige que a cada quarto ano, ou ano bissexto, se acrescente um dia, os antigos acrescentavam dias tais como os romanos costumavam chamar de intercalares, a fim de completar o número dos anos. De sorte que Enos, filho de Sete, tinha dezenove anos quando nasceu seu filho Cainã, embora a Escritura chame esses anos de cento e noventa.
E assim, ao longo de todas as gerações em que são dadas as idades dos antediluvianos, encontramos em nossas versões que quase ninguém gerou um filho com cem anos ou menos, nem mesmo com cento e vinte anos ou por aí; mas registra-se que os pais mais jovens tinham cento e sessenta anos e mais. E a razão disto, dizem eles, é que ninguém pode gerar filhos quando tem dez anos, idade que aqueles homens designam como cem, mas que dezesseis é a idade da puberdade, já capaz de propagar descendência; e esta é a idade por eles chamada de cento e sessenta.
E para que não se julgue inacreditável que naqueles dias o ano fosse computado de modo diverso do nosso, aduzem o que é registrado por vários escritores de história: que os egípcios tinham um ano de quatro meses, os acarnânios de seis, e os lavínios de treze meses. Plínio, o Jovem, depois de mencionar que alguns escritores relataram que um homem havia vivido cento e cinquenta e dois anos, outro dez a mais, outros duzentos, outros trezentos, que alguns haviam até alcançado quinhentos e seiscentos, e uns poucos oitocentos anos de idade, deu como sua opinião que tudo isto deve ser atribuído a erro de cômputo.
Pois alguns, diz ele, fazem do verão e do inverno cada qual um ano; outros fazem de cada estação um ano, como os arcádios, cujos anos, diz ele, eram de três meses. Acrescentou, ainda, que os egípcios, de cujos pequenos anos de quatro meses já falamos, às vezes terminavam o seu ano no minguante de cada lua; de sorte que entre eles se produzem tempos de vida de mil anos.
Por estes argumentos plausíveis, certas pessoas, sem desejo algum de enfraquecer o crédito desta história sagrada, mas antes de facilitar a fé nela removendo a dificuldade de tão inacreditável longevidade, persuadiram-se a si mesmas, e julgam agir sabiamente ao persuadir os outros, de que naqueles dias o ano era tão breve que dez dos seus anos equivalem a apenas um dos nossos, ao passo que dez dos nossos equivalem a cem dos deles. Mas há a mais clara evidência para mostrar que isto é inteiramente falso. Antes de apresentar tal evidência, porém, parece justo mencionar uma conjectura que é ainda mais plausível.
A partir dos manuscritos hebraicos poderíamos de imediato refutar esta afirmação confiante; pois neles se acha que Adão viveu não duzentos e trinta, mas cento e trinta anos antes de gerar seu terceiro filho. Se, então, isto significar treze anos pelo nosso cômputo ordinário, então ele deve ter gerado seu primeiro filho quando tinha apenas doze anos ou por aí. Quem, nesta idade, pode gerar filhos segundo o curso ordinário e familiar da natureza?
Mas, deixando-o de lado, visto ser possível que ele tenha sido capaz de gerar seu semelhante logo que foi criado (pois não é crível que tenha sido criado tão pequeno como os nossos recém-nascidos), deixando-o de lado, seu filho não tinha duzentos e cinco anos quando gerou Enos, como têm as nossas versões, mas cento e cinco, e, por conseguinte, segundo esta ideia, não tinha onze anos. Mas que direi de seu filho Cainã, que, embora pela nossa versão tivesse cento e setenta anos, segundo o texto hebraico tinha setenta quando gerou Maalaleel? Se setenta anos naqueles tempos significassem apenas sete dos nossos anos, que homem de sete anos de idade gera filhos?