A Cidade de Deus - Livro XIX 17

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

O que produz a paz e o que produz a discórdia entre a cidade celeste e a cidade terrena

Mas as famílias que não vivem pela buscam a sua paz nas vantagens terrenas desta vida, ao passo que as famílias que vivem pela aguardam aqueles bens eternos que lhes foram prometidos, e usam, como peregrinas, das vantagens do tempo e da terra de tal modo que estas não as fascinam nem as desviam de Deus, mas antes as ajudam a suportar com maior facilidade, e a manter reduzido o número daqueles fardos do corpo corruptível que oprimem a alma. Assim, as coisas necessárias a esta vida mortal são usadas igualmente por ambos os gêneros de homens e de famílias, mas cada um tem o seu próprio e profundamente diverso fim ao usá-las.
A cidade terrena, que não vive pela fé, busca uma paz terrena, e o fim que se propõe, na concórdia bem ordenada da obediência e do mando civil, é a combinação das vontades dos homens para alcançar as coisas que são úteis a esta vida. A cidade celeste, ou antes, a parte dela que peregrina na terra e vive pela fé, faz uso desta paz somente porque a isso é obrigada, até que passe esta condição mortal que a torna necessária.
Por conseguinte, enquanto vive como cativa e estrangeira na cidade terrena, ainda que tenha recebido a promessa da redenção e o dom do Espírito como penhor dela, não tem escrúpulo em obedecer às leis da cidade terrena, pelas quais se administram as coisas necessárias à manutenção desta vida mortal; e assim, sendo esta vida comum a ambas as cidades, entre elas uma harmonia no tocante àquilo que a ela pertence.
Mas, assim como a cidade terrena teve alguns filósofos cuja doutrina é condenada pelo ensino divino, e que, enganados quer por suas próprias conjecturas, quer pelos demônios, supuseram que se devia convidar muitos deuses a interessar-se pelos assuntos humanos, e atribuíram a cada um uma função separada e um departamento separado: a um o corpo, a outro a alma; e no próprio corpo, a um a cabeça, a outro o pescoço, e cada um dos demais membros a um dos deuses; e do mesmo modo, na alma, a um deus se atribuía a capacidade natural, a outro a educação, a outro a ira, a outro a concupiscência; e assim foram repartidos os vários afazeres da vida: o gado a um, o trigo a outro, o vinho a outro, o azeite a outro, os bosques a outro, o dinheiro a outro, a navegação a outro, as guerras e as vitórias a outro, os casamentos a outro, os nascimentos e a fecundidade a outro, e outras coisas a outros deuses; e como, por outro lado, a cidade celeste sabia que somente um Deus havia de ser adorado, e que a Ele era devido aquele serviço que os gregos chamam λατρεία, e que a um deus pode ser prestado: daí veio que as duas cidades não puderam ter leis comuns de religião, e que a cidade celeste foi compelida, nesta matéria, a dissentir e a tornar-se odiosa àqueles que pensam de modo diverso, e a enfrentar o ímpeto de sua ira, de seu ódio e de suas perseguições, exceto na medida em que os ânimos de seus inimigos foram aterrorizados pela multidão dos cristãos e refreados pela manifesta proteção de Deus a eles concedida.
Esta cidade celeste, portanto, enquanto peregrina na terra, chama cidadãos de todas as nações, e reúne uma sociedade de peregrinos de todas as línguas, sem se inquietar com as diversidades nos costumes, nas leis e nas instituições pelas quais a paz terrena é assegurada e mantida, mas reconhecendo que, por mais variadas que sejam, todas tendem a um e mesmo fim de paz terrena. Por isso, longe de rescindir e abolir essas diversidades, ela até as preserva e adota, contanto somente que com isso não se introduza nenhum impedimento à adoração do único, supremo e verdadeiro Deus.
Portanto, mesmo a cidade celeste, durante o seu estado de peregrinação, vale-se da paz da terra e, na medida em que o pode fazer sem prejuízo da e da piedade, deseja e mantém um acordo comum entre os homens quanto à aquisição do que é necessário à vida, e faz com que esta paz terrena se ordene à paz do céu; pois somente esta pode ser verdadeiramente chamada e tida como a paz das criaturas racionais, consistindo ela, como de fato consiste, no gozo perfeitamente ordenado e harmonioso de Deus e de uns aos outros em Deus.
Quando tivermos alcançado aquela paz, esta vida mortal dará lugar a uma que é eterna, e o nosso corpo não será este corpo animal que, por sua corrupção, oprime a alma, mas um corpo espiritual que de nada sente falta, e em todos os seus membros sujeito à vontade. Em seu estado de peregrinação, a cidade celeste possui esta paz pela fé; e por esta vive retamente, quando refere à consecução daquela paz toda boa ação para com Deus e para com o homem; pois a vida da cidade é uma vida social.