A Cidade de Deus - Livro XII 13
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Da revolução dos séculos, que alguns filósofos creem que tornará a trazer todas as coisas, depois de certo ciclo fixo, à mesma ordem e forma do princípio
Para resolver esta controvérsia, alguns filósofos não viram outro meio aprovado senão introduzir ciclos de tempo, nos quais haveria uma constante renovação e repetição da ordem da natureza; e, por isso, afirmaram que esses ciclos se repetirão incessantemente, passando um e vindo outro, embora não estejam de acordo quanto a se um único mundo permanente atravessará todos esses ciclos, ou se o mundo, em intervalos fixos, há de extinguir-se e renovar-se, de modo a exibir a recorrência dos mesmos fenômenos, coincidindo as coisas que foram com as que hão de ser.
E dessa fantástica vicissitude não isentam nem mesmo a alma imortal que alcançou a sabedoria, condenando-a a uma incessante transmigração entre uma bem-aventurança ilusória e uma miséria real. Pois como pode ser verdadeiramente chamada bem-aventurada aquela alma que não tem a certeza de sê-lo eternamente, e que ou ignora a verdade, cega para a miséria que se aproxima, ou, conhecendo-a, vive na miséria e no temor? Ou, se passa à bem-aventurança e deixa as misérias para sempre, então acontece no tempo algo novo a que o tempo não porá fim. Por que, então, não também o mundo? Por que não poderia o homem, igualmente, ser coisa semelhante?
De modo que, seguindo o caminho reto da sã doutrina, escapamos a não sei que veredas tortuosas, descobertas por sábios que enganam e que são enganados.
Alguns, também, defendendo esses ciclos recorrentes que restauram todas as coisas à sua origem, citam em favor de sua suposição o que Salomão diz no livro do Eclesiastes: "O que é que foi? O mesmo que há de ser. E o que é que se fez? O mesmo que se há de fazer; e nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos que foram antes de nós." Isto ele disse ou daquelas coisas de que acabara de falar, a saber, a sucessão das gerações, a órbita do sol, o curso dos rios, ou então de todas as espécies de criaturas que nascem e morrem.
Pois homens houve antes de nós, há conosco, e haverá depois de nós; e assim também todos os seres vivos e todas as plantas. Até mesmo as produções monstruosas e irregulares, ainda que diferindo umas das outras, e ainda que algumas sejam relatadas como casos únicos, contudo assemelham-se umas às outras de modo geral, enquanto são miraculosas e monstruosas, e, nesse sentido, foram, e hão de ser, e não são coisas novas e recentes debaixo do sol. Todavia, alguns entenderiam essas palavras como significando que, na predestinação de Deus, todas as coisas já existiram, e que assim não há nada de novo debaixo do sol.
De qualquer modo, longe esteja de todo verdadeiro crente supor que, por essas palavras de Salomão, se entendam aqueles ciclos nos quais, segundo esses filósofos, se repetem os mesmos períodos e acontecimentos do tempo; como se, por exemplo, o filósofo Platão, tendo ensinado na escola de Atenas que se chama Academia, assim, inumeráveis séculos antes, em intervalos longos mas certos, este mesmo Platão, e a mesma escola, e os mesmos discípulos houvessem existido, e assim também houvessem de repetir-se durante os incontáveis ciclos que ainda hão de vir: longe esteja, digo eu, de nós crer em tal coisa. Pois uma só vez Cristo morreu por nossos pecados; e, ressurgindo dos mortos, não morre mais.
"A morte já não tem domínio sobre Ele"; e nós mesmos, depois da ressurreição, estaremos "para sempre com o Senhor", a quem agora dizemos, conforme nos dita o sagrado Salmista: "Tu nos guardarás, ó Senhor; Tu nos preservarás desta geração." E o que se segue é, penso eu, bastante apropriado: "Os ímpios andam em círculo"; não porque a sua vida haja de retornar por meio desses círculos que esses filósofos imaginam, mas porque o caminho em que a sua falsa doutrina agora corre é tortuoso.