A Cidade de Deus - Livro XII 12
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Como responder àqueles que criticam a criação do homem por ser de data tão recente
Quanto àqueles que estão sempre a perguntar por que o homem não foi criado durante essas incontáveis idades do passado infinitamente estendido, e veio à existência tão tardiamente que, segundo a Escritura, menos de seis mil anos se passaram desde que começou a ser, eu lhes responderia acerca da criação do homem tal como respondi, acerca da origem do mundo, àqueles que não querem crer que ele não é eterno, mas teve um começo, o que até mesmo o próprio Platão declara com toda a clareza, ainda que alguns pensem que sua afirmação não estava de acordo com sua verdadeira opinião.
Se os ofende que o tempo decorrido desde a criação do homem seja tão curto, e seus anos tão poucos segundo as nossas autoridades, considerem isto: que nada que tem um limite é longo, e que todas as idades do tempo, sendo finitas, são muito pouco, ou mesmo nada, quando comparadas à eternidade interminável.
Por conseguinte, se houvessem decorrido, desde a criação do homem, não digo cinco ou seis, mas mesmo sessenta ou seiscentos mil anos, ou sessenta vezes esse número, ou seiscentas ou seiscentos mil vezes esse número, ou essa soma multiplicada até não poder mais ser expressa em números, a mesma pergunta ainda poderia ser feita: Por que não foi ele feito antes?
Pois é tão grande a eternidade passada e sem limites durante a qual Deus se absteve de criar o homem, que, por mais que a compareis com o vasto e indizível número de idades que vos aprouver, contanto que haja uma conclusão definida desse período de tempo, não é sequer como se comparásseis a menor gota de água com o oceano que por toda parte flui ao redor do globo.
Pois, dessas duas coisas, uma é de fato muito pequena, a outra incomparavelmente vasta, e contudo ambas são finitas; mas aquele espaço de tempo que parte de algum começo, e é limitado por algum término, seja qual for a sua extensão, se o comparais com aquilo que não tem começo, não sei se devo dizer que o teríamos de contar como a menor coisa de todas, ou como absolutamente nada.
Pois tomai esse tempo limitado e subtraí do seu fim, um a um, os mais breves momentos (assim como poderíeis tomar dia após dia da vida de um homem, começando pelo dia em que ele agora vive, retrocedendo até o do seu nascimento); e ainda que o número de momentos que tendes de subtrair nesse movimento retrógrado seja tão grande que nenhuma palavra o possa exprimir, todavia essa subtração em algum momento vos conduzirá ao começo.
Mas se tirais de um tempo que não tem começo, não digo breves momentos um a um, nem ainda horas, ou dias, ou meses, ou mesmo anos em grandes quantidades, mas períodos de anos tão vastos que não podem ser nomeados pelo mais hábil dos calculistas (tirai períodos de anos tão vastos quanto aquele que supusemos ser gradualmente consumido pela subtração de momentos), e tirai-os não uma e outra vez repetidamente, mas sempre, que efeito produzis, que conseguis com a vossa subtração, visto que nunca alcançais o começo, que não tem existência alguma?
Por isso, aquilo que agora indagamos depois de cinco mil e tantos anos, os nossos descendentes poderiam, com igual curiosidade, indagar depois de seiscentos mil anos, supondo que essas gerações mortais dos homens continuem por tanto tempo a decair e a se renovar, e supondo que a posteridade permaneça tão fraca e ignorante quanto nós mesmos. A mesma pergunta poderia ter sido feita por aqueles que viveram antes de nós, e quando o homem era ainda mais recente sobre a terra. O próprio primeiro homem, em suma, poderia, no dia seguinte, ou no próprio dia da sua criação, ter perguntado por que não foi criado mais cedo.
E não importa em que período mais cedo ou mais tarde ele tivesse sido criado, esta controvérsia acerca do começo da história deste mundo teria exatamente as mesmas dificuldades que tem agora.