A Cidade de Deus - Livro XII 14
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Da criação do gênero humano no tempo, e como isso se efetuou sem nenhum novo desígnio ou mudança de propósito da parte de Deus
Que admira que, enredados nesses círculos, não encontrem nem entrada nem saída? Pois ignoram como o gênero humano, e esta nossa condição mortal, teve sua origem, nem como será conduzido a seu fim, visto que não conseguem penetrar a inescrutável sabedoria de Deus. Pois, embora Ele próprio seja eterno e sem princípio, fez contudo que o tempo tivesse um princípio; e ao homem, que antes não havia feito, fê-lo no tempo, não por uma resolução nova e súbita, mas por seu desígnio imutável e eterno.
Quem pode sondar a insondável profundidade deste propósito, quem pode perscrutar a inescrutável sabedoria, com que Deus, sem mudança de vontade, criou o homem, que antes nunca havia existido, e lhe deu existência no tempo, e multiplicou o gênero humano a partir de um só indivíduo? Pois o próprio Salmista, depois de ter dito primeiro: "Tu nos guardarás, ó Senhor, Tu nos preservarás desta geração para sempre", e tendo então repreendido aqueles cuja doutrina insensata e ímpia não reserva para a alma nenhuma libertação e bem-aventurança eternas, acrescenta imediatamente: "Os ímpios andam em círculo." Então, como se lhe fosse dito: "Que crês, pois, sentes, sabes?
Devemos crer que de repente ocorreu a Deus criar o homem, que Ele nunca antes havia feito numa eternidade passada, Deus, a quem nada de novo pode ocorrer, e em quem não há mutabilidade alguma?", o Salmista prossegue respondendo, como se se dirigisse ao próprio Deus: "Segundo a profundidade da Tua sabedoria, multiplicaste os filhos dos homens." Que os homens, parece ele dizer, imaginem o que lhes apraz, que conjeturem e disputem como bem lhes pareça, mas Tu multiplicaste os filhos dos homens segundo a profundidade da Tua sabedoria, que nenhum homem pode compreender.
Pois esta é, de fato, uma profundidade: que Deus sempre tenha existido, e que ao homem, que Ele nunca antes havia feito, tenha querido fazer no tempo, e isto sem mudar seu desígnio e sua vontade.