A Cidade de Deus - Livro VIII 8
Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio
Que os platônicos também ocupam o primeiro lugar na filosofia moral
A parte restante da filosofia é a moral, ou aquilo que os gregos chamam de ἠθική, na qual se discute a questão do bem supremo: aquele que nada mais nos deixará a buscar para sermos felizes, contanto que façamos com que todas as nossas ações se refiram a ele, e o busquemos não em vista de outra coisa, mas por ele mesmo. Por isso é chamado fim, porque desejamos as demais coisas em razão dele, mas a ele somente por si mesmo. Esse bem beatificante, portanto, segundo alguns, vem ao homem do corpo; segundo outros, da mente; e, segundo outros ainda, de ambos em conjunto.
Pois viram que o próprio homem consta de alma e corpo; e por isso julgaram que de qualquer um desses dois, ou de ambos em conjunto, deveria proceder o seu bem-estar, consistindo em certo bem final, capaz de torná-los felizes, e ao qual pudessem referir todas as suas ações, sem requerer nada mais ulterior a que referir esse próprio bem.
É por isso que aqueles que acrescentaram um terceiro gênero de bens, aos quais chamam extrínsecos (como a honra, a glória, a riqueza e coisas semelhantes), não os consideraram parte do bem final, isto é, algo a ser buscado por si mesmo, mas coisas que devem ser buscadas em vista de outra coisa, afirmando que esse gênero de bem é bom para os bons e mau para os maus. Por isso, quer tenham buscado o bem do homem na mente, quer no corpo, quer em ambos em conjunto, ainda assim foi somente no homem que supuseram dever buscá-lo.
Mas aqueles que o buscaram no corpo buscaram-no na parte inferior do homem; os que o buscaram na mente, na parte superior; e os que o buscaram em ambos, no homem inteiro. Portanto, quer o tenham buscado em alguma parte, quer no homem inteiro, ainda assim buscaram-no somente no homem; e essas diferenças, sendo três, não deram origem apenas a três seitas dissidentes de filósofos, mas a muitas. Pois diversos filósofos sustentaram diversas opiniões, tanto acerca do bem do corpo, quanto do bem da mente, quanto do bem de ambos em conjunto.
Cedam, portanto, todos esses lugar àqueles filósofos que não afirmaram que o homem é feliz pelo gozo do corpo, ou pelo gozo da mente, mas pelo gozo de Deus: gozando dele, contudo, não como a mente goza do corpo ou de si mesma, ou como um amigo goza de outro, mas como o olho goza da luz, se é que, de fato, podemos estabelecer alguma comparação entre essas coisas. Mas qual é a natureza dessa comparação se mostrará, se Deus me ajudar, em outro lugar, na medida das minhas forças.
Por ora, basta mencionar que Platão determinou que o bem final consistia em viver conforme a virtude, e afirmou que somente pode alcançar a virtude aquele que conhece e imita a Deus, conhecimento e imitação que são a única causa da felicidade. Por isso, não duvidou de que filosofar é amar a Deus, cuja natureza é incorpórea. Donde certamente se segue que o estudioso da sabedoria, isto é, o filósofo, então se tornará feliz quando tiver começado a gozar de Deus.
Pois, ainda que não seja necessariamente feliz aquele que goza daquilo que ama (porque muitos são miseráveis por amar aquilo que não deveria ser amado, e ainda mais miseráveis quando o gozam), todavia ninguém é feliz se não goza daquilo que ama. Pois mesmo aqueles que amam coisas que não deveriam ser amadas não se consideram felizes por amá-las simplesmente, mas por gozá-las. Quem, então, senão o mais miserável, negará que é feliz aquele que goza daquilo que ama, e ama o verdadeiro e supremo bem?
Ora, o verdadeiro e supremo bem, segundo Platão, é Deus; e por isso ele chamaria filósofo àquele que ama a Deus, pois a filosofia se ordena à obtenção da vida feliz, e aquele que ama a Deus é feliz no gozo de Deus.