A Cidade de Deus - Livro VIII 6

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Sobre o pensamento dos platônicos na parte da filosofia chamada física

Esses filósofos, pois, que vemos não imerecidamente exaltados acima dos demais em fama e glória, perceberam que nenhum corpo material é Deus e, portanto, transcenderam todos os corpos na busca por Deus. Perceberam que tudo o que é mutável não é o Deus altíssimo e, por isso, transcenderam toda alma e todos os espíritos mutáveis na busca pelo ser supremo. Perceberam também que, em toda coisa mutável, a forma que a faz ser aquilo que ela é, qualquer que seja o seu modo ou natureza, pode existir por meio Daquele que verdadeiramente é, porque Ele é imutável.
E, portanto, quer consideremos o corpo inteiro do mundo, sua figura, suas qualidades e seu movimento ordenado, e também todos os corpos que nele há; quer consideremos toda vida, seja aquela que nutre e mantém, como a vida das árvores, seja aquela que, além disso, também possui sensação, como a vida dos animais; ou aquela que acrescenta a tudo isto a inteligência, como a vida do homem; ou aquela que não necessita do amparo do alimento, mas apenas mantém, sente e compreende, como a vida dos anjos: tudo pode existir por meio Daquele que absolutamente é.
Pois, para Ele, não é uma coisa ser e outra viver, como se Ele pudesse ser sem viver; nem é para Ele uma coisa viver e outra compreender, como se Ele pudesse viver sem compreender; nem é para Ele uma coisa compreender e outra ser bem-aventurado, como se Ele pudesse compreender e não ser bem-aventurado. Mas, para Ele, viver, compreender e ser bem-aventurado são o mesmo que ser. A partir dessa imutabilidade e dessa simplicidade, compreenderam que todas as coisas hão de ter sido feitas por Ele e que Ele mesmo não pôde ser feito por nenhuma.
Pois consideraram que tudo o que é ou é corpo ou é vida, e que a vida é algo melhor do que o corpo, e que a natureza do corpo é sensível, ao passo que a da vida é inteligível. Portanto, preferiram a natureza inteligível à sensível. Por coisas sensíveis entendemos aquelas que podem ser percebidas pela visão e pelo tato do corpo; por coisas inteligíveis, aquelas que podem ser compreendidas pela visão da mente. Pois não beleza corpórea, seja na condição de um corpo, como na figura, seja em seu movimento, como na música, que não seja a mente quem a julga.
Mas isso jamais poderia acontecer se não existisse na própria mente uma forma superior dessas coisas, sem massa, sem ruído de voz, sem espaço e sem tempo. Contudo, mesmo no que diz respeito a essas coisas, se a mente não fosse mutável, não seria possível a um julgar melhor do que outro a respeito das formas sensíveis. Aquele que é arguto julga melhor do que aquele que é lento, aquele que é hábil melhor do que aquele que é inábil, aquele que é exercitado melhor do que aquele que é inexperiente; e a mesma pessoa julga melhor depois de ter adquirido experiência do que julgava antes.
Mas aquilo que é capaz de mais e de menos é mutável; donde os homens capazes, que refletiram profundamente sobre essas coisas, concluíram que a forma primeira não de ser encontrada naquelas coisas cuja forma é mutável. Visto, portanto, que viram que o corpo e a mente podem ser mais ou menos belos na forma, e que, se lhes faltasse a forma, não poderiam ter existência alguma, viram que uma existência na qual está a forma primeira, imutável e, por isso, não admitindo graus de comparação; e nela acreditaram, com toda a razão, estar o princípio primeiro das coisas, que não foi feito e pelo qual todas as coisas foram feitas.
Portanto, aquilo que de Deus se conhece Ele lhes manifestou, quando as suas coisas invisíveis foram vistas por eles, sendo compreendidas por meio daquelas coisas que foram feitas; assim também o seu eterno poder e a sua divindade, pelos quais todas as coisas visíveis e temporais foram criadas. dissemos o suficiente sobre aquela parte da teologia que eles chamam física, isto é, natural.