A Cidade de Deus - Livro VIII 22

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Que, apesar da opinião de Apuleio, devemos rejeitar o culto dos demônios

Nenhuma destas quatro alternativas, pois, deve ser escolhida; porque não ousamos supor a respeito dos deuses coisas tão indignas quanto aquelas a que a adoção de qualquer uma delas nos levaria a pensar. Resta, portanto, que nenhum crédito se de dar à opinião de Apuleio e dos demais filósofos da mesma escola, a saber, que os demônios atuam como mensageiros e intérpretes entre os deuses e os homens, para levar de nós aos deuses as nossas súplicas e para nos trazer de volta o auxílio dos deuses.
Pelo contrário, devemos crer que são espíritos sumamente ávidos de causar dano, totalmente alheios à justiça, inchados de soberba, lívidos de inveja, sutis no engano; que habitam, na verdade, neste ar como numa prisão, em conformidade com o seu próprio caráter, porque, lançados do alto do céu superior, foram condenados a habitar neste elemento como justa recompensa de uma transgressão irreparável.
Mas, ainda que o ar esteja situado acima da terra e das águas, nem por isso são eles superiores em mérito aos homens, os quais, embora não os ultrapassem no que toca aos corpos terrenos, contudo de muito os excedem pela piedade da mente, pois escolheram o verdadeiro Deus por seu auxílio. A muitos, porém, que são manifestamente indignos de participar da verdadeira religião, eles tiranizam como a cativos que subjugaram, e à maior parte deles persuadiram da sua divindade por sinais admiráveis e mentirosos, consistentes ou em feitos ou em predições.
A alguns, todavia, que consideraram com mais atenção e diligência os seus vícios, não conseguiram persuadir de que são deuses, e assim fingiram ser mensageiros entre os deuses e os homens. Alguns, na verdade, julgaram que nem mesmo esta última honra se devia reconhecer-lhes como própria, não crendo que fossem deuses, porque viam que eram perversos, ao passo que os deuses, segundo a sua opinião, são todos bons.
Não ousaram, contudo, dizer que eram inteiramente indignos de toda honra divina, com receio de ofender a multidão, pela qual, por inveterada superstição, os demônios eram servidos com a celebração de muitos ritos e a edificação de muitos templos.