A Cidade de Deus - Livro VIII 21

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Se os deuses se servem dos demônios como mensageiros e intérpretes, e se são por eles enganados de boa vontade, ou sem o saberem

Mas é aqui, sem dúvida, que reside a grande necessidade desse absurdo tão indigno dos deuses: a de que os deuses etéreos, que se ocupam dos negócios humanos, não saberiam o que fazem os homens terrestres, a menos que os demônios aéreos lhes trouxessem a notícia, porque o éter está suspenso muito longe da terra e muito acima dela, ao passo que o ar é contíguo tanto ao éter quanto à terra.
Ó admirável sabedoria! Que outra coisa pensam esses homens a respeito dos deuses que, segundo dizem, são todos sumamente bons, senão que se ocupam dos negócios humanos, para que não pareçam indignos de culto, ao mesmo tempo que, por outro lado, em razão da distância entre os elementos, ignoram as coisas terrestres? É por esse motivo que supuseram serem necessários os demônios como agentes, por meio dos quais os deuses possam informar-se acerca dos negócios humanos, e por meio dos quais, quando necessário, possam socorrer os homens; e é em razão desse ofício que os próprios demônios foram tidos por merecedores de culto.
Se assim é, então um demônio é mais conhecido desses deuses bons pela proximidade do corpo do que um homem o é pela bondade da mente. Ó lastimável necessidade! Ou não direi antes erro detestável e vão, para que não atribua vaidade à natureza divina!
Pois, se os deuses podem, com suas mentes livres do estorvo dos corpos, ver a nossa mente, então não necessitam dos demônios como mensageiros da nossa mente até eles; mas, se os deuses etéreos, por meio de seus corpos, percebem os índices corpóreos das mentes, como o semblante, a fala, o movimento, e daí entendem o que os demônios lhes dizem, então também é possível que sejam enganados pelas falsidades dos demônios. Ademais, se a divindade dos deuses não pode ser enganada pelos demônios, tampouco pode ignorar as nossas ações.
Mas eu quisera que me dissessem se os demônios informaram aos deuses que as ficções dos poetas acerca dos crimes dos deuses desagradam a Platão, ocultando o prazer que eles próprios nelas tomam; ou se ocultaram ambas as coisas, e preferiram que os deuses ignorassem tudo a respeito desse assunto; ou se relataram ambas, tanto a piedosa prudência de Platão a respeito dos deuses quanto a sua própria luxúria, que é injuriosa aos deuses; ou se ocultaram a opinião de Platão, segundo a qual ele não queria que os deuses fossem difamados com crimes falsamente alegados pela ímpia licença dos poetas, ao passo que não se envergonharam nem temeram dar a conhecer a sua própria maldade, que os faz amar as peças teatrais, nas quais se celebram os feitos infames dos deuses.
Escolham eles qual quiserem destas quatro alternativas, e considerem quanto mal qualquer uma delas os obrigaria a pensar dos deuses. Pois, se escolherem a primeira, então hão de confessar que não foi possível aos deuses bons habitar com o bom Platão, embora ele procurasse proibir as coisas injuriosas a eles, ao passo que habitavam com demônios maus, que exultavam com as injúrias dirigidas a eles; e isso porque supõem que os deuses bons podem conhecer um homem bom, posto a tão grande distância deles, por meio da mediação dos demônios maus, a quem podiam conhecer em razão de sua proximidade consigo mesmos.
Se escolherem a segunda, e disserem que ambas estas coisas são ocultadas pelos demônios, de modo que os deuses ignoram inteiramente tanto a religiosíssima lei de Platão quanto o sacrílego prazer dos demônios, que poderão então os deuses conhecer com algum proveito a respeito dos negócios humanos por meio desses demônios mediadores, quando não conhecem aquelas coisas que são decretadas, pela piedade dos homens bons, para a honra dos deuses bons contra a luxúria dos demônios maus?
Mas, se escolherem a terceira, e responderem que esses demônios intermediários comunicaram não a opinião de Platão, que proibia que se fizessem ultrajes aos deuses, mas também o seu próprio deleite nesses ultrajes, eu perguntaria se tal comunicação não é antes um insulto.
Ora, os deuses, ouvindo ambas as coisas e conhecendo ambas, não permitem a aproximação daqueles demônios malignos, que desejam e fazem coisas contrárias à dignidade dos deuses e à religião de Platão, mas também, por meio desses demônios perversos, que lhes estão próximos, enviam coisas boas ao bom Platão, que está longe deles; pois habitam tal lugar na série encadeada dos elementos que podem entrar em contato com aqueles que os acusam, mas não com aquele que os defende, conhecendo a verdade de ambos os lados, mas não sendo capazes de mudar o peso do ar e da terra.
Resta a quarta suposição; mas ela é pior do que as demais.
Pois quem suportará que se diga que os demônios deram a conhecer as caluniosas ficções dos poetas acerca dos deuses imortais, e também as vergonhosas zombarias dos teatros, e a sua própria luxúria ardentíssima por essas coisas e o docíssimo prazer que nelas tomam, ao passo que lhes ocultaram que Platão, com a gravidade de um filósofo, deu como sua opinião que todas essas coisas deveriam ser removidas de uma república bem ordenada; de sorte que os deuses bons são agora compelidos, por meio de tais mensageiros, a conhecer os maus feitos dos seres mais perversos, isto é, dos próprios mensageiros, e não lhes é permitido conhecer as boas ações dos filósofos, embora as primeiras sejam para a injúria, e estas últimas para a honra dos próprios deuses?