A Cidade de Deus - Livro VIII 20
Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio
Se devemos crer que os deuses bons preferem o trato com os demônios ao trato com os homens
Mas será que alguma causa urgente e premente obriga os demônios a mediar entre os deuses e os homens, de modo a oferecer as preces dos homens e a trazer de volta as respostas dos deuses? E, se assim é, qual é, peço, essa causa, qual é essa tão grande necessidade? Porque, dizem eles, nenhum deus tem trato com o homem.
Admirabilíssima santidade de Deus, que não tem trato com o homem suplicante e, contudo, tem trato com o demônio arrogante! Que não tem trato com o homem penitente e, contudo, tem trato com o demônio enganador! Que não tem trato com o homem que se refugia na natureza divina e, contudo, tem trato com o demônio que finge divindade! Que não tem trato com o homem que busca perdão e, contudo, tem trato com o demônio que persuade à perversidade! Que não tem trato com o homem que, por meio de escritos filosóficos, expulsa os poetas de um Estado bem regulado e, contudo, tem trato com o demônio que requer dos príncipes e dos sacerdotes de um Estado a representação teatral dos escárnios dos poetas! Que não tem trato com o homem que proíbe que se atribuam crimes aos deuses e, contudo, tem trato com o demônio que se deleita na representação fictícia de seus crimes! Que não tem trato com o homem que pune os crimes dos magos por leis justas e, contudo, tem trato com o demônio que ensina e pratica as artes mágicas! Que não tem trato com o homem que foge de imitar um demônio e, contudo, tem trato com o demônio que está de tocaia para enganar o homem!