A Cidade de Deus - Livro VIII 19

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Da impiedade da arte mágica, que depende do auxílio de espíritos malignos

Além disso, contra aquelas artes mágicas, das quais alguns homens, extremamente miseráveis e extremamente ímpios, se deleitam em jactar-se, não pode a própria opinião pública ser apresentada como testemunha? Pois por que são essas artes tão severamente punidas pelas leis, se são obras de divindades que deveriam ser adoradas? Dir-se-á que foram os cristãos que ordenaram aquelas leis pelas quais as artes mágicas são punidas? Com que outro sentido, exceto que esses sortilégios são sem dúvida perniciosos para o gênero humano, disse o mais ilustre poeta:
"Pelo céu o juro, e por tua querida vida, contra a vontade empunho estas armas, e tomo, para enfrentar a luta que se aproxima, a espada e o escudo do encantamento."
E também aquilo que ele diz em outro lugar a respeito das artes mágicas:
"Eu o vi transportar para outro lugar as searas que estavam de pé",
tem referência ao fato de que os frutos de um campo se diz serem transferidos para outro por essas artes que esta doutrina pestilenta e maldita ensina. Não nos informa Cícero que, entre as leis das Doze Tábuas, isto é, as mais antigas leis dos romanos, havia uma lei escrita que estabelecia uma punição a ser infligida àquele que fizesse tal coisa? Por fim, foi acaso diante de juízes cristãos que o próprio Apuleio foi acusado de artes mágicas?
Tivesse ele sabido que essas artes eram divinas e piedosas, e congruentes com as obras do poder divino, deveria não apenas tê-las confessado, mas também tê-las professado, antes censurando as leis pelas quais essas coisas eram proibidas e declaradas dignas de condenação, ao passo que deveriam ter sido tidas como dignas de admiração e respeito.
Pois, agindo assim, ou teria persuadido os juízes a adotar a sua própria opinião, ou, se eles tivessem manifestado a sua parcialidade por leis injustas e o tivessem condenado à morte, não obstante o seu louvor e recomendação de tais coisas, os demônios teriam concedido à sua alma as recompensas que ele merecia, ele que, para proclamar e expor as obras divinas deles, não temera a perda da sua vida humana.
Assim como os nossos mártires, quando aquela religião lhes era imputada como crime, religião pela qual sabiam estar salvos e gloriosíssimos por toda a eternidade, não escolheram, negando-a, escapar aos castigos temporais, mas antes, confessando-a, professando-a e proclamando-a, suportando todas as coisas por ela com fidelidade e fortaleza, e morrendo por ela com piedosa serenidade, envergonharam a lei pela qual aquela religião era proibida, e causaram a sua revogação.
Mas existe um discurso copiosíssimo e eloquente deste filósofo platônico, no qual ele se defende da acusação de praticar essas artes, afirmando ser-lhes inteiramente estranho, e desejando apenas mostrar a sua inocência negando coisas tais que não podem ser cometidas inocentemente. Mas todos os milagres dos mágicos, que ele julga merecedores de justa condenação, realizam-se segundo o ensino e pelo poder dos demônios. Por que, então, julga ele que estes devam ser honrados?
Pois ele afirma que eles são necessários para apresentar as nossas orações aos deuses, e contudo as suas obras são tais que devemos evitá-las se quisermos que as nossas orações alcancem o verdadeiro Deus. De novo pergunto: que espécie de orações dos homens supõe ele serem apresentadas aos bons deuses pelos demônios? Se orações mágicas, eles não terão nenhuma de tal tipo; se orações lícitas, não as receberão por meio de tais seres.
Mas, se um pecador que está arrependido derrama orações, especialmente se cometeu algum crime de feitiçaria, recebe ele perdão pela intercessão daqueles demônios por cuja instigação e auxílio caiu no pecado que lamenta? Ou serão os próprios demônios, a fim de poderem merecer o perdão para o penitente, os primeiros a tornar-se penitentes por haverem enganado os homens? Isto ninguém jamais disse a respeito dos demônios; pois, fosse este o caso, eles nunca ousariam buscar para si honras divinas.
Pois como o fariam aqueles que pela penitência desejassem obter a graça do perdão, visto que tão detestável soberba não poderia coexistir com uma humildade digna de perdão?