A Cidade de Deus - Livro VIII 2
Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio
As duas escolas de filósofos, a Itálica e a Jônica, e seus fundadores
No que diz respeito à literatura dos gregos, cuja língua ocupa lugar mais ilustre do que qualquer das línguas das outras nações, a história menciona duas escolas de filósofos: uma chamada escola Itálica, originária daquela parte da Itália que outrora se chamava Magna Grécia; a outra chamada escola Jônica, tendo sua origem naquelas regiões que ainda hoje são designadas pelo nome de Grécia. A escola Itálica teve por fundador Pitágoras de Samos, a quem também se diz dever sua origem o próprio termo "filosofia".
Pois, ao passo que antes se chamavam sábios aqueles que pareciam superar os demais pela maneira louvável com que regulavam suas vidas, Pitágoras, ao ser perguntado o que professava, respondeu que era filósofo, isto é, estudioso ou amante da sabedoria; pois lhe parecia ser o cúmulo da arrogância proclamar-se sábio. O fundador da escola Jônica, por sua vez, foi Tales de Mileto, um daqueles sete que eram intitulados os "sete sábios", dos quais seis se distinguiram pelo gênero de vida que levavam e por certas máximas que proferiram para a reta condução da vida.
Tales distinguiu-se como investigador da natureza das coisas; e, a fim de ter sucessores em sua escola, confiou suas dissertações à escrita. Aquilo, porém, que sobretudo o tornou eminente foi sua capacidade de, por meio de cálculos astronômicos, predizer até mesmo os eclipses do sol e da lua. Pensava, contudo, que a água era o primeiro princípio das coisas, e que dela em última instância consistem todos os elementos do mundo, o próprio mundo e todas as coisas que nele são geradas. Sobre toda esta obra, no entanto, que, quando consideramos o mundo, parece tão admirável, ele nada estabeleceu da natureza de uma mente divina.
Sucedeu-lhe Anaximandro, seu discípulo, que sustentava opinião diferente acerca da natureza das coisas; pois não sustentava que todas as coisas brotam de um só princípio, como Tales, que sustentava ser esse princípio a água, mas pensava que cada coisa brota de seu próprio princípio peculiar. Esses princípios das coisas, acreditava ele, eram infinitos em número, e pensava que geravam inumeráveis mundos e todas as coisas que neles surgem.
Pensava, também, que esses mundos estão sujeitos a um perpétuo processo de alternada dissolução e regeneração, durando cada um por período mais longo ou mais curto de tempo, conforme a natureza do caso; nem ele, mais do que Tales, atribuía algo a uma mente divina na produção de toda essa atividade das coisas. Anaximandro deixou como seu sucessor o discípulo Anaxímenes, que atribuía todas as causas das coisas a um ar infinito. Este nem negava nem ignorava a existência dos deuses; mas, longe de crer que o ar fosse feito por eles, sustentava, ao contrário, que eles próprios brotavam do ar.
Anaxágoras, porém, que foi seu discípulo, percebeu que uma mente divina era a causa produtora de todas as coisas que vemos, e disse que todos os vários gêneros de coisas, segundo seus diversos modos e espécies, eram produzidos de uma matéria infinita constituída de partículas homogêneas, mas pela eficiência de uma mente divina. Diógenes, também, outro discípulo de Anaxímenes, disse que certo ar era a substância original das coisas, da qual todas as coisas eram produzidas, mas que esse ar possuía uma razão divina, sem a qual nada dele poderia ser produzido.
A Anaxágoras sucedeu seu discípulo Arquelau, que também pensava que todas as coisas consistiam de partículas homogêneas, das quais cada coisa particular era feita, mas que essas partículas eram permeadas por uma mente divina, a qual perpetuamente vivificava todos os corpos eternos, a saber, essas partículas, de modo que elas alternadamente se unem e se separam. Sócrates, o mestre de Platão, é dito ter sido discípulo de Arquelau; e é por causa de Platão que ofereci este breve esboço histórico de toda a história dessas escolas.