A Cidade de Deus - Livro VIII 3

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Da filosofia socrática

Diz-se que Sócrates foi o primeiro a dirigir todo o esforço da filosofia para a correção e a regulação dos costumes, tendo todos os que o precederam empregado seus maiores empenhos na investigação dos fenômenos físicos, isto é, naturais.
Contudo, parece-me que não se pode descobrir com certeza se Sócrates fez isso por estar cansado das coisas obscuras e incertas, e assim desejar dirigir a mente para a descoberta de algo manifesto e certo, o que era necessário para a obtenção de uma vida bem-aventurada (aquele grande objetivo único para o qual o labor, a vigilância e a diligência de todos os filósofos parecem ter sido dirigidos), ou se (como alguns, ainda mais favoráveis a ele, supõem) o fez por não querer que mentes maculadas por desejos terrenos tentassem elevar-se às coisas divinas.
Pois ele via que as causas das coisas eram buscadas por eles (causas que ele acreditava redutíveis, em última instância, a nada mais que a vontade do único Deus verdadeiro e supremo), e por isso julgava que elas poderiam ser compreendidas por uma mente purificada; e, portanto, que toda diligência deveria ser dedicada à purificação da vida por meio de bons costumes, a fim de que a mente, liberta do peso opressor das concupiscências, pudesse elevar-se por seu vigor nativo às coisas eternas, e pudesse, com o entendimento purificado, contemplar aquela natureza que é luz incorpórea e imutável, onde vivem as causas de todas as naturezas criadas.
É evidente, contudo, que ele perseguia e investigava, com uma admirável amenidade de estilo e de argumento, e com uma urbanidade mordaz e insinuante, a tolice dos homens ignorantes que julgavam saber isto ou aquilo, ora confessando a própria ignorância, ora dissimulando o seu conhecimento, mesmo naquelas próprias questões morais às quais parece ter dirigido toda a força de sua mente. E daí surgiu a hostilidade contra ele, que terminou em sua acusação caluniosa e em sua condenação à morte.
Depois, no entanto, aquela mesma cidade dos atenienses, que publicamente o havia condenado, publicamente o pranteou, tendo a indignação popular se voltado com tal veemência contra os seus acusadores que um deles pereceu pela violência da multidão, ao passo que o outro escapou de igual castigo por um exílio voluntário e perpétuo.
Ilustre, portanto, tanto em vida quanto na morte, Sócrates deixou numerosíssimos discípulos de sua filosofia, que rivalizavam uns com os outros no desejo de destreza no tratamento daquelas questões morais que dizem respeito ao bem supremo (summum bonum), cuja posse pode tornar um homem bem-aventurado; e porque, nas disputas de Sócrates, em que ele levanta toda sorte de questões, faz afirmações e em seguida as derruba, não aparecia com clareza o que ele tinha por bem supremo, cada um tomou dessas disputas o que melhor lhe agradava, e cada um colocou o bem final naquilo em que a ele próprio parecia consistir.
Ora, aquilo que se chama bem final é aquele em que, uma vez chegado a ele, o homem é bem-aventurado. Mas tão diversas eram as opiniões sustentadas por esses seguidores de Sócrates a respeito desse bem final que (coisa dificilmente crível tratando-se dos seguidores de um único mestre) alguns colocaram o bem supremo no prazer, como Aristipo, outros na virtude, como Antístenes. Na verdade, seria fastidioso enumerar as várias opiniões dos vários discípulos.