A Cidade de Deus - Livro VIII 18

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Que espécie de religião é aquela que ensina que os homens devem valer-se da intercessão dos demônios para serem recomendados ao favor dos bons deuses

Em vão, portanto, Apuleio e os que pensam como ele conferiram aos demônios a honra de situá-los no ar, entre os céus etéreos e a terra, para que levem aos deuses as preces dos homens e aos homens as respostas dos deuses; pois Platão sustentava, dizem eles, que nenhum deus tem trato com o homem.
Os que creem nessas coisas julgaram impróprio que os homens tivessem trato com os deuses, e os deuses com os homens, mas conveniente que os demônios tivessem trato tanto com os deuses quanto com os homens, apresentando aos deuses as petições dos homens e transmitindo aos homens o que os deuses concederam; de modo que um homem casto, e que é estranho aos crimes das artes mágicas, deva valer-se como patronos, por meio dos quais os deuses possam ser induzidos a ouvi-lo, de demônios que amam esses crimes, embora o próprio fato de não os amar devesse tê-lo recomendado a eles como alguém que merecia ser escutado com maior prontidão e boa vontade de sua parte.
Eles amam as abominações do palco, que a castidade não ama. Amam, nos sortilégios dos magos, "mil artes de causar dano", que a inocência não ama. Contudo, tanto a castidade quanto a inocência, se quiserem obter algo dos deuses, não poderão fazê-lo por seus próprios méritos, a não ser que seus inimigos atuem como mediadores em seu favor. Apuleio não precisa tentar justificar as ficções dos poetas e os escárnios do palco.
Se o pudor humano pode agir de modo tão infiel para consigo mesmo, a ponto não de amar coisas vergonhosas, mas até de pensar que elas são agradáveis à divindade, podemos citar do outro lado a própria autoridade máxima e mestre deles, Platão.